
Jane Campion não é nenhuma cineasta iniciante. Vencedora da Palma de Ouro em Cannes e dos Oscar de Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro Original com o filme O Piano, era de se esperar que, mesmo que não fosse uma obra excepcional, fizesse justiça à biografia daquele que é considerado um dos maiores poetas românticos ingleses do século XIX. Mas o seu Brilho de Uma Paixão vai além da decepção. É bastante enfadonho, na verdade.
E talvez o seja por culpa do próprio John Keats que, se você for pesquisar, não teve uma vida das mais interessantes. Jovem escritor, publicou e escreveu bastante, tendo desistido da Medicina para dedicar-se exclusivamente à poesia. Sempre foi duramente criticado, como alguém cujo potencial talento nunca aflorava completamente. Desiludido, endividado e triste pelo pouco sucesso de seu poema, Endymion, conhece Fanny Brawne na Londres do início do século XIX e o foco da biografia é totalmente no romance dos dois, cheio de altos e baixos.
A partir do momento em que os dois personagens se conhecem até o final do filme, praticamente nada acontece. Para aqueles que gostam de romances melosos, bem ao estilo novelesco global, é a obra ideal. Interessante observar que o roteiro parece seguir, quase que fielmente, os passos do poeta na vida real a partir da paixão por Fanny. E é entre essas e outras que certas histórias jamais deveriam ir para a tela grande, permanecendo apenas na Literatura ou nos seus meios de origem.
Apesar disso, como toda cinebiografia, essa também omite detalhes polêmicos a respeito de seus personagens. Por exemplo, Brawne é apresentada como sendo o único e verdadeiro amor de Keats, sendo completamente omitida a presença de Isabella Jones em sua vida, uma mulher com a qual se relacionou brevemente e que pode ter sido, inclusive, a primeira a influenciá-lo em um de seus mais famosos poemas, Bright Star, que viria a ser dedicado a Fanny. Também é completamente cortado da obra, de uma maneira quase mentirosa, o rumo futuro que esta personagem tomaria após o ponto em que a narrativa se encerra, dando a entender algo que não é verdade.
É um filme de europeu pra europeu, com nuances bem peculiares, especialmente para o público inglês, que deve ter adorado, contribuindo para isso o fato de que Keats é adorado lá enquanto no Brasil ele é praticamente desconhecido.
Quase no final da projeção, acontece a única cena que vale realmente a pena ver, com Abbie Cornish dando o melhor de si quando recebe uma notícia. Quem assiste se emociona, mesmo que tenha dormido a maior parte do filme, com a sua reação. Realmente digna de nota. Um momento inspirado dela, que passa quase duas horas nos entediando imensamente.
Brilho de Uma Paixão resulta de uma compilação dos fatos conhecidos da vida de John Keats, com alguma licença poética para beijos escondidos e abraços apaixonados. Para quem gosta de Cinema, não é um filme aconselhável. Para quem gosta de Entretenimento, também não. Já para os amantes da dor-de-cotovelo na sétima arte, é um prato cheio. Para se lambuzar. E Jane Campion permanece sem repetir o sucesso que fez em 1993.
Brilho de Uma Paixão
Dirigido por Jane Campion (2h)
Pré-estreia no Belas Artes nesta sexta-feira, 06 de agosto, às 21 horas
Em cartaz no Belas Artes a partir de 13 de agosto

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
Aproveite para nos seguir no Twitter, acompanhar atualizaçoes pelo canal RSS ou enviar-nos email com sugestoes, dicas, críticas. Para anunciar, voce também pode utilizar nosso canal de contato.