
Nos Estados Unidos, há um número enorme de produtoras e distribuidoras, o que dá um 'equilíbrio natural' ao Cinema Norte-Americano. Isso estava demorando a acontecer no Brasil, mas agora, com a estreia de Uma Noite em 67, da VideoFilmes e Record Entretenimento, podemos ficar otimistas a esse respeito. Seria este documentário, de produção executiva de João Moreira Salles, o início do fim da predominância da Globo Filmes sobre o nosso mercado? Tenho fé que sim. E o melhor: com uma obra bonita e interessante.
Diretores de cinema estreantes, o publicitário Renato Terra e o jornalista e crítico cinematográfico Ricardo Calil tiveram êxito em escolher um dos episódios mais interessantes da música popular brasileira recente como tema de seu documentário. O III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, realizado em formato programa de auditório, trouxe para o imaginário popular uma série de canções que embalariam acontecimentos históricos do Brasil sob domínio do AI -5, especialmente Alegria, Alegria, de Caetano Veloso; Domingo no Parque, de Gilberto Gil; e Roda Viva, de Chico Buarque. Os três viveriam posteriormente o pesadelo do exílio, sobre o qual evitam falar claramente em seus depoimentos, no documentário, dizendo apenas que 'não sentem saudades' daqueles anos.
Numa montagem extremamente bem feita por Jordana Berg, nenhum dos personagens ainda vivos fica de fora, tendo sido entrevistado até mesmo Roberto Carlos, cujo contrato de exclusividade com a Globo lhe impediu, inclusive, de lançar um Acústico MTV. Incrivelmente, Calil consegue entrevistá-lo, para um filme da Record, principal concorrente da emissora, e também por causa disso temos de admirar o trabalho por detrás dessa obra, meticulosa, que não hesitou em usar as imagens originais do festival, de precariedade evidente, mas som perfeito.
Essa decisão, arriscada mas acertada, nos faz sentir como se estivéssemos dentro do festival, e por causa dela podemos apreciar o evento em sua totalidade, o que é fundamental para que o documentário funcione e, acima de tudo, nos emocione. Vemos os depoimentos de Paulinho Machado e Sérgio Cabral, sobre o contexto do evento e da música da época. Em seguida, vemos cenas do público e dos jurados. Intercalado com as performances, falas dos intérpretes nos bastidores do festival e na época atual. Tudo isso monta para nós um panorama muito rico, em nuances, sentimentos e música, da melhor qualidade. Sem cortes, vemos gradualmente Sérgio Ricardo ir perdendo a paciência com o público, até sua explosão impensada. E o compreendemos. Poucas são as pessoas que tiveram a oportunidade de ver a cena por completo de sua performance de Beto Bom de Bola. A obra faz o público voltar no tempo e ter essa oportunidade.
Também há a chance de rever o MPB4, ainda afinado como no dia do festival. E saber que a guitarra não foi um instrumento sempre amado por todos. E entender o background que levou Caetano a cantar com os Beach Boys e Gil com os Mutantes. Mas para as novas gerações, que não sabem nada de nosso rico passado musical, dá até mesmo a oportunidade aos jovens de saberem quem foram os Mutantes e que Rita Lee não teve sempre o cabelo ruivo.
Outra decisão acertada foi a de deixarem "vazar" algumas perguntas do entrevistador e até mesmo o perfil dele, enquanto entrevista alguns artistas, de uma forma que ele participa da obra e aí é como se o público também participasse e cogitasse como seria entrevistar Chico Buarque e ouvir ele dizer "A vida de mocinho é fudida" ou Edu Lobo afirmar que "você vira um cavalo" quando vai a um festival apresentar uma música e as pessoas apostam dinheiro em sua vitória.
Uma Noite em 67 é vibrante, a ponto das pessoas que estão assistindo não conseguirem evitar cantar junto com os intérpretes e conversarem o tempo todo durante a projeção, comentando com o amigo ao lado sobre este artista ou aquele. Traz humor, emoção e faz um resgate histórico importantíssimo. Num país sem memória, a Record começa com o pé direito, desafiando com categoria o gigante adversário.
Uma Noite em 67
Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil (1h 33 min)
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Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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