
Guel Arraes teve muito sucesso em sua carreira como diretor de séries de TV, especialmente os grandes sucessos Armação Ilimitada, TV Pirata e Comédia da Vida Privada. Quase como uma consequência natural, passou a dirigir cinema, a partir do ano 2000, sendo que seu primeiro filme, O Auto da Compadecida, foi um sucesso, originado da série de mesmo nome também dirigida por ele. Sua adaptação para a peça de Ariano Suassuna lhe trouxe uma projeção nacional que jamais se repetiria novamente. Nenhum dos filmes que dirigiu em seguida fez tanto sucesso quanto o primeiro. Talvez isso tenha feito o realizador dedicar mais tempo à produção de filmes como Meu Tio Matou Um Cara, A Grande Família - O Filme e Meu Nome Não é Johnny. Além disso, produziu mais séries para a TV, sendo notória, dentre elas, A Grande Família.
Esse background explica bem o porquê de O Bem Amado, seu novo filme, ter sido feito como foi e ter todos os defeitos que tem. Podemos considerá-lo como um episódio de novela ou minissérie global particularmente grande em sua duração, defeito esse de boa parte dos filmes brasileiros, especialmente os da Globo Filmes. A verdade é que esta, devido ao seu know how na televisão, ainda não conseguiu encontrar sua linguagem cinematográfica. Por trabalhar com uma equipe excessivamente acostumada ao formato televisivo, e nisso incluo atores, todo o staff técnico e especialmente o diretor, a Globo falha em produzir Cinema, obras cinematográficas, que se desvinculem do que as pessoas já assistem em suas casas, no horário nobre.
Isso fica mais do que evidente em cada aspecto de O Bem Amado. Interessante observar que até mesmo na escolha da temática abordada, Guel falhou terrívelmente, escolhendo uma história de Dias Gomes cujo personagem, interpretado com maestria por Paulo Gracindo numa novela e numa mini-série, ainda vive no imaginário coletivo das pessoas. Para grande parte delas, Gracindo, falecido em 1995, ainda é o Bem Amado. E Marco Nanini se esforça, mas não consegue de forma alguma imprimir o humor necessário ao personagem, especialmente porque as pessoas ainda estão acostumadas a vê-lo através das cômicas expressões faciais do outro ator, que interpretou Odorico durante cinco anos, vejam bem. Nanini é mediano. Mas jamais conseguiria assumir papel tão ingrato, mesmo se fosse excepcional.
A infelicidade na escolha do tema multiplica-se quando consideramos também os diálogos excessivamente sérios (era para ser uma história divertida), o humor idiota (isso quando aparece), e a tentativa de associar a história da política brasileira com a trajetória de Odorico, sendo o ápice do ridículo quando Caio Blat fala da passeata das Diretas Já, numa espécie de mea culpa bizarro. Afinal, é pública a tentativa da Globo, quando a passeata ocorreu, em 1984, de enganar o telespectador, dizendo às pessoas que estavam em casa que o movimento não era nada além de manifestações de alegria pelo aniversário de São Paulo, numa óbvia tentativa de disfarçar a iniciativa política.
A trilha sonora é das piores que já vi em filmes brasileiros esse ano, não usando música instrumental, apenas com músicas conhecidas revisadas por intérpretes de diversos 'calibres' como Mallu Magalhães, Zé Ramalho e Caetano Velloso, numa óbvia tentativa de vender CDs, bem ao estilo 'compre a trilha sonora da sua novela favorita!'. Lamentável.
O único que se saí realmente bem é Matheus Nachtergaele, para o qual o cinema já é uma linguagem familiar, tendo inclusive dirigido o excepcional A Festa da Menina Morta. Andréa Beltrão está lastimável como sempre, afinal, a sétima arte nunca foi a sua 'praia'. Tonico Pereira, ironicamente, está muito melhor em cena do que Nanini, mas também isso não quer dizer muita coisa. Como podem perceber, temos aí três membros da Grande Família, três personagens centrais. Coincidência? Faltou só Marieta Severo.
Para os mais jovens, faixa etária de 15 a 20 anos, especialmente os que gostam de novela, o filme funciona. É aquela máxima que vale para outras obras da Globo Filmes, como Chico Xavier. Se você gosta de TV, vale a pena ir ao cinema para ver este filme. Mas tendo acima de 20 e querendo ver um bom filme brasileiro, fica impossível achar graça. Tédio garantido.
Por tudo o exposto, não percam o tempo de vocês assistindo O Bem Amado, mais um desses filmes que dá vergonha ao Cinema Nacional. Há outras obras brasileiras boas em cartaz. Prestigiem o Cinema Nacional. Mas, de preferência, o de boa qualidade. E Arraes precisa voltar urgente a produzir apenas mini-séries.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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