
Woody Allen é um dos poucos cineastas cujo estilo de filmar e roteirizar é bastante definido. É fácil identificar uma produção dele logo nos primeiros minutos. Talvez por isso tenha sido, durante muitos anos, alvo tanto de admiração de milhões de fãs pelo mundo quanto de crítica, especialmente daqueles que o acusavam de nunca renovar-se. E entrou nos anos 2000 investindo em produções que fugiam totalmente de seus padrões pré-estabelecidos como Match Point, Scoop e Vicky Cristina Barcelona. Produções fracas, insípidas, sem ritmo, sem graça. Não eram criações que refletiam a alma de seu mestre.
Para a alegria dos fãs de Allen devo dizer que "o bom filho à casa torna". Sim, Woody volta a Nova York em Tudo Pode Dar Certo e retoma também seu estilo sarcástico, roteiro ágil e diálogos rápidos. Ele não está de corpo presente no filme, mas coloca o rabugento Boris (Larry David, humorista que já roteirizou Seinfeld e Saturday Night Life) para representá-lo à altura. Este protagonista é uma peça rara, como destas que só existem em filmes de Allen. Judeu (naturalmente), ele é um físico genial, que quase foi indicado ao Prêmio Nobel e é o único dos personagens que consegue perceber que está dentro de um filme, como já nos conta no diálogo inicial. Ele não acredita no amor nem na bondade do ser humano. É plenamente consciente de que todos irão se extinguir um dia e, talvez como reflexo disso, tem ataques de pânico, sendo hipocondríaco e temeroso de práticas como sexo e exercícios físicos.
Prestem atenção no primeiro diálogo, no qual Boris começa a caminhar em direção à câmera e fala rapidamente e sem parar, quase sem cortes, por alguns minutos, que são decisivos para entendermos a respeito de sua peculiar personalidade e a respeito de seu lema de vida: 'whatever works'. Esse era o título original do filme e foi traduzido, mal e porcamente, por 'tudo pode dar certo'. Mas a verdade é que o sentido está mais para 'qualquer coisa que funcione' ou 'o que funcionar'. Tenham isso em mente quando lerem as legendas, para entenderem melhor o filme. Quem traduziu mal o título o fez também durante a projeção, uma injustiça com aqueles que não compreendem em inglês a refinada ironia do personagem.
Outra questão a ser observada diz respeito à série de referências que a produção faz a outros autores, obras, teorias, lugares dos Estados Unidos e do mundo, tipos de culinária e, claro, filmes. Sutis homenagens a E o Vento Levou, com a rápida menção dos personagens Melaine, Scarlett e Ashley; e a Juno and The Paycock, filme de Alfred Hitchcock feito em 1930. Engraçado pensar que, se hoje Hitchcock é, por unanimidade, o mestre do suspense, em sua época também foi obrigado a fazer produções que não eram "a sua cara" e sempre sofreu duras críticas durante toda a sua carreira. Seria uma leve mensagem subliminar que Woody estaria tentando nos passar?
Fato é que tantas referências fazem com que o espectador que não tenha certa bagagem encontre sérias dificuldades em acompanhar o ritmo do filme, sempre com diálogos rápidos e referências à mecânica quântica. Ainda assim, é impossível não se divertir com a atuação de Larry David. Boris é realmente genial durante todo o filme. Ele mal nos dá tempo de pensar. E se auto-analisa o tempo todo, além de criticar de forma incisiva o comportamento dos demais personagens. É irônico, sarcástico, inteligente e interessante. Consegue costurar todas as histórias paralelas e 'segura' o enredo como um todo.
Destaque para a trilha sonora bem inusitada, que inclui Groucho Marx, Beethoven, Jackie Gleason e Charlie Byrd, este último o renomado jazzista norte-americano que foi o grande responsável pela disseminação da Bossa Nova e da Música Brasileira nos Estados Unidos. No filme, estão as interpretações dele para as faixas Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça, e Menina Flor, de Luiz Bonfá.
Podemos considerar Tudo Pode Dar Certo como uma retomada de Allen ao seu estilo característico, que solidificou sua carreira? Torçamos para que sim. Com 75 anos, o diretor volta-se para suas raízes, o ambiente no qual se sente mais confortável, mostrando ao público um filme cheio de vida, que lembra clássicos como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa; Zelig e Hannah e Suas Irmãs. Ao mesmo tempo, consegue renovar-se, abordando assuntos polêmicos com sua percepção única, que mescla diversão e bizarrice com uma pitada autobiográfica. Não é para qualquer um.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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