
Sherry Horman, roteirista e diretora de TV, acumula a mais uma de suas experiências no cinema a obra Flor do Deserto, realizada com o objetivo de contar a história de Waris Dirie e baseada em autobiografia desta. Waris é da Somália e sua peculiar trajetória de vida deu origem a matérias jornalísticas de rádio, tv, jornal, revistas e a três livros. Mas a adaptação para o cinema falhou grandemente em transmitir, como era desejável, toda a emoção e tristeza necessárias para nos fazer refletir a respeito da questão da mutilação genital feminina, da qual foi vítima.
Isso é um dos defeitos mais graves da obra, mas não é o único. A escolha da pouco experiente Liya Kebede para interpretar a protagonista foi um erro fatal, apesar de ser um casting entendível, se não óbvio. Assim como Waris, Liya também vem de um país pobre, a Etiópia, e também foi descoberta sob circunstâncias inesperadas. As duas se tornaram top models internacionalmente famosas e usaram isso para promoverem suas causas. A de Liya é a de promoção da saúde de mães, recém-nascidos e crianças da Etiópia e de todo o mundo. Apesar disso, de terem tanto em comum, a inexperiência pesou e a jovem modelo não consegue passar para o público a emoção necessária para o entendimento da dura infância que Dirie enfrentou. O que é uma pena.
Outro detalhe, pequeno mas estranho, é o fato de que no filme a mutilação que a protagonista sofreu é mencionada como tendo ocorrido aos três anos quando, na verdade, ela aconteceu aos cinco. Porque diminuir dois anos? E não para por aí: uma série de fatos ocorridos com a modelo são levemente modificados no filme, sem propósito algum. Qual a diferença entre uma menina que decide fugir e uma menina acordada pela mãe para fugir? É uma mudança enorme! Mas porque os espectadores devem ser convencidos de que o que aconteceu foi o primeiro quando, na verdade, o que ocorreu foi o segundo? Diga-se de passagem que ser fiel à história tornaria as coisas mais interessantes. Porque então foi modificado? Bem, seja qual for o propósito, não foi concretizado. A vida real da personagem é mais interessante, o que exclui totalmente a necessidade de se fazer um filme. O roteiro se autoboicota involuntariamente.
Observe-se que em muitas obras adaptadas de livros isso acontece, mas, nesse caso, as modificações são em grande parte responsáveis pela falta de emoção do filme, pelo fato da história não nos tocar como deveria. Mesmo em cenas carregadas de carga dramática, como quando Waris revela à amiga Marylin (Sally Hawkins) o fato de ser mutilada, o público não se sente tocado ou triste, apesar das copiosas lágrimas da modelo. O único momento ao qual é impossível ficar indiferente é quando a pequenina Waris, com três anos, aparece sendo carregada por sua mãe, numa sequência quase torturante. Mas aí já é tarde demais e boa parte do filme já foi perdida.
Mas vamos aos aspectos positivos de Flor do Deserto, que traz algumas peculiaridades interessantes. Detalhes como a câmera no corredor, 'envergonhada', que observa de longe a personagem fazer uma visita inesperada; a ótima elipse do espelho; e uma transição do rosto da protagonista para o árido deserto mostram que, pelo menos do ponto de vista técnico, Sherry sabe o que está fazendo. A ótima trilha sonora elaborada por Martin Todsharow também endossa isso e é um dos melhores aspectos do filme, pois dita com muito estilo e sensibilidade o ritmo e as emoções da personagem. Merecem destaque também as interpretações boas dos atores mais experientes, Timothy Spall como o fotógrafo Terry Donaldson e Sally Hawkins como a maluca e divertida Marylin, os dois adicionando um pouco mais de 'tempero' à trama.
Definitivamente esta é uma obra que nos incomoda e nos faz pensar a respeito da mulher, sempre tão desrespeitada em todas as religiões e oprimida em inúmeros países. Mas, ao final da projeção, a sensação que fica é de que algo está faltando. É como se a áridez da Somália tivesse passado para a tela, seca, sem nenhum batimento cardíaco, nenhum sangue correndo nas veias desse filme. Apenas um tema polêmico proposto e a nossa imaginação tendo de ficar responsável pelo interesse sobre o tema (ou não).

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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