
Assim como muitos outros, Laurent Tirard deixou de ser apenas roteirista e já acumula alguns anos de experiência como realizador. Com As Aventuras de Molière, em 2007, alcançou certa notoriedade, mas tudo indica que O Pequeno Nicolas deverá ser seu filme de maior projeção. Isso porque conseguiu, de uma forma bastante notável, captar nessa obra o espírito da história de René Goscinny, algo raro numa adaptação de um livro para a tela grande.
Ainda mais se tratando de uma obra infantil. É muito fácil para qualquer diretor 'perder a mão', com uma história tão recheada de humor inocente e um elenco cuja maior parte tem faixa etária média de dez anos. Além disso, como recrear ambientes, costumes, comportamentos da década de 1950 sem parecer clichê, com a naturalidade de quem conta uma história que se passa nos dias de hoje? O resultado em O Pequeno Nicolau é bastante satisfatório e recomendado para crianças de oito a oitenta. O filme lembra outras obras, como O Menino Maluquinho (1994) e muitas das séries infantis apresentadas pela TV Cultura nos anos 90 como Castelo Rá-Tim-Bum e O Mundo da Lua (mais pela temática que pelo formato).
A história já começa com o panorama geral de boa parte dos personagens que aparecerá durante toda a projeção. O enredo trata-se do seguinte: Nicolau (Maxime Godart) é um garoto de dez anos que não poderia querer uma vida melhor: tem uma mãe e um pai que o adoram e estuda numa escola onde é cercado de amigos de todos os 'tipos'. Até o dia em que seu colega Joaquim (Virgile Tirard, filho do diretor) chega atrasado à aula porque ganhou um irmãozinho. Isso abre margem para uma série de engraçados mal-entendidos e confusões de todo o tipo envolvendo Nicolau e sua turma.
Destaque para a trilha sonora montada por Klaus Badelt, que mistura músicas de vários estilos, pontuando o ritmo e os momentos de maior impacto da trama. É mais do que certo que as canções chegam a contribuir com cerca de 60% do enredo e o filme jamais funcionaria com a mesma eficácia sem elas. Particularmente emblemáticas nesse sentido, temos algumas sequências, como quando a nova professora encara seus alunos e sentimos a atmosfera do velho oeste dos duelos de Sérgio Leone ou quando os meninos remam num navio e A Cavalgada das Valquírias, de Wagner, se encarrega do resto. A sequência do jantar, dos garotos arrumando a casa e do carro em alta velocidade também são excelentes para observar isso, além de nos fazerem rir bastante.
Reparem também nos créditos iniciais do filme. Todos foram ilustrados pelos desenhos de Jean-Jacques Sempé, que sempre foram a caracterização que Nicolau e sua turma tiveram nos livros. O ilustrador original do personagem também caracterizou de maneira divertida o site oficial do filme.
O Pequeno Nicolau trata da confusão causada pela falta de comunicação entre adultos e crianças, muito comum ainda nos dias de hoje e geradora de inúmeros problemas. Nos faz refletir sobre a necessidade de conversarmos com nossos filhos, nossos primos, nossos sobrinhos, levando em consideração o que eles sentem, pensam, entendem. Algo importante e muito sério, mas abordado da forma mais deliciosa possível. Talvez dessa forma seja mais fácil para os adultos captarem a mensagem.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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