
Mesmo tendo sido, até hoje, a rainha que durante mais tempo esteve à frente da Grã-Bretanha (foram 64 anos de reinado), a história de Vitória I do Reino Unido é praticamente desconhecida fora da Inglaterra. Esse motivo somado à interessante vida que teve esta monarca já seriam mais do que suficientes para justificar a realização do filme A Jovem Rainha Vitória, dirigido por Jean-Marc Vallée, cineasta canadense pouco conhecido. Antes desse, Vitória I só foi protagonizada por Romy Schneider, no clássico de 1953, Os Jovens Anos de uma Rainha.
A obra não tem nada de mais, fora o fato de que venceu o Oscar de Melhor Figurino na premiação deste ano. E foi mais do que merecido, visto que as roupas de época são lindíssimas e elaboradas não como se fossem de uma época, mas sim como se nós tivéssemos sido transportados para o século XIX e estivéssemos presenciando a última e mais bela moda. São roupas clássicas, mas que chegam a brilhar de tão exuberantes. E vestidos de festa que fazem inveja em qualquer mulher elegante.
No enredo, Emily Blunt (participou de O Diabo Veste Prada) é a teimosa Vitória, que, às vésperas de completar 18 anos, é vítima da insistência de seu tutor, Sir John Conroy (Mark Strong) em abdicar do trono inglês, já que é a próxima na linha de sucessão. Enquanto isso, muitos se movimentam no sentido de arrumar-lhe um marido. Um dos candidatos é o príncipe e primo Albert (Rupert Friend, fez O Garoto do Pijama Listrado, Orgulho e Preconceito e se parece com Orlando Bloom de uma forma quase assustadora). Mas ela conta com um fator a seu favor: ninguém pode pedí-la em casamento por ela ser da realeza. Apenas ela pode fazer o pedido, o que, teoricamente, lhe deixa livre para escolher quem queira.
A obra intenciona mostrar o lado humano da realeza, mas acaba exagerando um pouco e inventando fatos desnecessários, para que a produção fique apelativa às mocinhas românticas. Como em muitas cinebiografias, só vemos as perspectivas positivas das figuras históricas. Chega a ser inverossímel a preocupação que tanto a Rainha quanto Albert manifestam pelos trabalhadores da recém-nascida Era Industrial. Claro que a intenção disto é boa: mostrar que durante a Era Vitoriana foram tomadas muitas medidas favoráveis à população. Ainda assim, fica um pouco forçado. E as núpcias de Vitória são muito melosas. Mas o efeito causado acaba funcionando, pois enfatiza o fato de que ela foi uma das primeiras autoridades reais inglesas a se casar por amor, não apenas por interesses. Curiosidade boba mas interessante é que ela foi quem lançou a moda, que permanece até hoje, de ser usar o véu longo junto com o vestido de noiva, algo que causou bastante frisson na época.
Com o foco totalmente voltado para valorizar o lado bom de seu governo, detalhes básicos sobre a vida da rainha passam despercebidos, como o fato dela se chamar, na verdade, Alexandrina Vitória ou de ser hemofílica, por exemplo, este último bastante intrigante, visto que viveu 81 anos e teve 9 filhos. Ao mesmo tempo, temos algumas ironias, como por exemplo as pontuações do príncipe Albert sobre a execução da limpeza no Palácio de Buckingham e Castelo de Windsor, que quase justificam certos aspectos da biografia dele.
Apesar de ter a produção de Martin Scorsese, este longa, tecnicamente falando, é filmado de forma bastante convencional, com câmeras às vezes desfocadas ou por baixo do braço, sendo que a tomada mais chamativa é aquela que acompanha a protagonista "flutuando" até a pista de dança, numa perspectiva bem interessante. Mesmo assim, e aqui se considere tudo já citado, A Jovem Rainha Vitória é inofensivo em sua essência, obra leve, que se não emociona também não causa nenhum desconforto dos piores no público.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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