
Se a vida de Steven Jay Russell já era peculiar relatada no livro do jornalista Steve Mcvicker, I Love You Phillip Morris: A True Story of Life, Love & Prision Breaks, imagine agora que se tornou filme, e uma comédia tendo Jim Carrey no papel título. Tinha tudo para ser ridículo. Clichê. Bobo. Mas o resultado foi até bastante satisfatório. O Golpista do Ano é uma espécie de Prenda-me Se For Capaz, mas com um Frank Abagnale Jr. bem mais cômico.
Dirigido pela dupla de cineastas estreantes Glenn Ficarra e John Requa, a obra conta a história de como Russell, apelidado nos Estados Unidos de Houdini e King Con (con artist significa vigarista, esse termo seria, em tradução livre, o Rei dos vigaristas), conseguiu escapar quatro vezes das garras da justiça do Texas, incluindo aí uma lista imensa de crimes, dentre eles fraude de seguros, motivo este que o leva à prisão do Harris County Jail, onde conhece Phillip Morris (Ewan McGregor). Assim como o livro, o filme gira em torno da intensidade com a qual ele viveu esta paixão e todas as coisas inacreditáveis que fez para que pudesse ficar junto do seu amado.
Assim como o personagem real e sua história, Carrey nos conquista como protagonista e isso porque ele interpreta com seriedade o papel de Russel, sem ridicularizá-lo mas, ao mesmo tempo, tornando-o cômico na medida certa. Ele consegue dar a sensibilidade necessária, sem perder o jeito escrachado que seus fãs tanto gostam. E chega a enganar o público, da mesma forma que Steven fez.
McGregor também está muito bem como Phillip Morris, apesar de ter um apelo um pouco mais clichê que Carrey. Ainda assim, nos emociona. Rimos e choramos junto com ele. E também nos deixamos enganar por Russel, mesmo sabendo desde o princípio o quão desonesto ele é. Destaque para a participação pequena, mas significativa, de Rodrigo Santorno no filme, com um inglês impecável. Santoro mostra-se como um dos mais promissores atores nossos lá fora, extremamente profissional e fazendo bem papéis que poderiam ser desastrosos na mão de outros intérpretes inexperientes e maravilhados com a indústria de Hollywood. Ele consegue ser importante e marcante em uma obra mesmo com um papel pequeno, sempre relembrando a nós, brasileiros, que ele é, acima de tudo, um bom ator e que ainda vai longe.
Apesar de ser um filme interessante, seu conteúdo polêmico envolvendo os controversos crimes cometidos pelo protagonista e algumas cenas de sexo fizeram com que várias vezes a sua distribuição nos Estados Unidos fosse adiada, ainda não tendo estreado oficialmente por lá. A última data de lançamento anunciada foi para outubro deste ano. Os conservadores norte-americanos, no entanto, permitiram a distribuição internacional do filme, que estreou não só no Brasil, mas em boa parte do mundo, incluindo Inglaterra, Itália, Dinamarca, Filipinas e até mesmo Japão. Sinal de que bobos eles não são e criam estratégias para que o investimento dê retorno.
Pelo motivo que seja, é bom saber que não é só no Brasil que filmes enfrentam problemas de distribuição, perigando, inclusive, nunca serem assistidos em sua terra-natal. Apesar de não ser um dos assuntos principais abordados em O Golpista do Ano, a obra nos leva a refletir sobre a homofobia e como ela ainda interfere nas criações artísticas e em sua consequente difusão. Já está passando da hora de alguma coisa ser feita a esse respeito. Me pergunto se a Motion Picture Association of America não deveria se preocupar com esse tipo de questão. Será inocência minha?
O Golpista do Ano
Dirigido por Glenn Ficarra e John Requa (1h 40min)
Saiba onde está em cartaz

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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