
Propondo uma reflexão simples mas profunda sobre o ser humano, o filme O Refúgio, dirigido pelo indicado à Palma de Ouro em Cannes François Ozon, tem um ritmo mais devagar, cuja velocidade se parece com a da vida real. Aqueles que não o assistirem dispostos a entender isso podem achar a obra enfadonha. Ela não tem grandes explosões, tiroteios ou revelações bombásticas. Propõe apenas alguns minutos de pausa no nosso cotidiano, para presenciarmos o crescimento de uma personagem juntamente com seu bebê.
O filme trata principalmente da maternidade e do papel que ela assume na vida da mulher contemporânea. Mousse (Isabelle Carré) é viciada em heroína e namora Louis (Melvil Poupaud), também viciado, do qual engravida. Ela decide ter o bebê, apesar de todos a aconselharem a fazer o contrário. Em uma casa na praia, refugiada do mundo, ela pensa a respeito de sua vida. Até que Paul (Louis-Ronan Choisy), irmão de Louis, a visita, dando a ela novas perspectivas.
A produção aborda também a homofobia e reflete a respeito da questão da adoção. Tecnicamente falando, Ozon concentra suas câmeras em mostrar as emoções de seus personagens, material este que é o mais importante para que o público faça a leitura de O Refúgio que o cineasta deseja. Temos Mousse em primeiríssimo plano, pressionada conta a cadeira, tomando a decisão mais importante de sua vida. Em alguns planos, a protagonista pensa, imagina, sonha, chora. E para ao lado de espelhos, de pé e na banheira, em segundos silenciosos e belos de se ver. Na boate, a imagem dela é recortada frente ao fundo frenético e seu andar em slow motion mostra como seu ritmo pessoal destoa dos demais, apesar do esforço da personagem em se integrar ao contexto.
A trilha sonora é melancólica, com o uso principalmente do piano. Destaque para a música-tema da obra, Le Refuge, que foi composta por Choisy, também responsável pela trilha como um todo. Essa música predomina, em diversas variações, durante toda a projeção. E dita o sentimento dos personagens, traduzindo seus dramas, com sensibilidade. Destaque para a atuação de Isabelle Carré, uma atriz francesa experiente e convincente, muito expressiva, que consegue cumprir bem a complexa tarefa de nos passar as diversas emoções vivenciadas por Mousse. Mais do que isso, ela faz com que nos identifiquemos, algo essencial para que o filme funcione.
O Refúgio esclarece para nós algo que deveria ser óbvio: não podemos racionalizar demais as coisas. O ser humano não pode nem precisa fazer sentido ou ser compreendido pelos seus pares. Ele apenas existe. E essa existência é algo tão complexo que não há nada mais natural que cada um de nós lide com isso de uma forma.
O Refúgio
Dirigido por François Ozon (1h 30min)
Exibido dentro da programação do Festival Varilux de Cinema Francês

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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