
Com o crescimento da consciência ambiental e a propagação de canais de TV como o National Geografic, cada vez mais comuns em diversos países do mundo, têm sido produzidos filmes, documentários, curta-metragens e todo o tipo de produtos audiovisuais dedicados à observação dos animais em seu ambiente natural. Inicialmente apelativos ao público, o formato dessas obras começa a se desgastar e, ao invés de mobilizar as pessoas em prol da preservação das espécies, levam ao tédio do espectador, principalmente por causa da forma como são comumente conduzidos. Talvez por causa desse contexto, obras como Oceanos precisem enfrentar o preconceito. Mas para aqueles que dão uma chance à produção, não há experiência mais enriquecedora.
Tanto na sua forma de execução quanto pela forma como aborda seu conteúdo, Oceanos é uma obra-prima. Usando várias câmeras simultâneas e com um trabalho de montagem soberbo, o resultado é uma perspectiva sem igual da vida marítima, em todas as suas nuances. Desde travellings aéreos até plongées e contra plongées, passando por câmeras submersas com as quais os animais marítimos interagem de forma muito natural, a execução do filme demandou o uso de diversos recursos cinematográficos, com o objetivo de fugir dos já citados clichês. Foram quatro anos de filmagens em mais de cinqüentas localizações diferentes. A equipe dos diretores Jacques Perrin e Jacques Cluzaud percorreu os quatro cantos do mundo, em busca de toda a riqueza de detalhes que fosse possível. E o mais surpreendente de tudo isso é que eles chegaram a um complexo e sensível resultado mais do que satisfatório.
Répteis, invertebrados, mamíferos, anfíbios e peixes de todo o tipo estão retratados no filme e são protagonistas de inúmeras cenas mais do que inesquecíveis. Merecem destaque pelo menos três sequências: a do nascimento das tartaruguinhas, do encontro entre grandes grupos de siris e do barco cortando grandes ondas em alto mar. São partes da obra nas quais fica evidente o cuidado que os cineastas tiveram na execução de seu trabalho. E que, para serem captadas, com certeza demandaram muitos dias de gravação.
A primeira mostra filhotes de tartaruga saindo de seus ovos e indo em direção ao mar. Nesse momento, a trilha nos indica que algo vai acontecer e já ficamos tensos, à espera de que algo dê errado. Quando a ação se dá, ficamos impressionados com a frieza de Perrin e Cluzaud, por não terem interferido na cena e não terem eles mesmos conduzido os filhotes até a água, como qualquer técnico do projeto Tamar faria. Na verdade, a sequência é um registro que irá pontuar o ritmo do resto da projeção, no sentido de que não há, durante a maior parte do filme, nenhum tipo de indicativo de presença humana na natureza. Eles não impõem aos animais como as coisas vão acontecer. A ordem é ao contrário. E dói o coração constatar isso. Na verdade, este fato abre uma discussão: o que é mais importante? Registrar as coisas como são ou abrir mão do registro para fazer algo a respeito do que está acontecendo na sua frente? Os dois cineastas optaram pela primeira alternativa.
Já no encontro entre siris, temos um exemplo da 'sequência crescente' que costuma ser mostrada pela obra com vários animas. À princípio apenas um espécime ocupa a tela. Logo em seguida vem mais dois, depois mais três, até termos duas 'manadas' de incontáveis siris prestes a se colidirem, numa infinita disputa entre eles por quem irá passar para o outro lado. Nesse ponto, a trilha, composta por tambores, também é essencial e genial, visto que é concebida para nos dar a sensação de que estamos numa guerra e que os siris vão se degladiar, como nessas clássicas cenas de batalha que o Cinema tem inúmeras. Assistimos a sequência 'aérea' do 'campo de batalha' admirados com a quantidade de 'soldados' e ficamos boquiabertos. É impressionante como algo tão impressionante acontece no fundo do mar e ninguém nem toma conhecimento.
Por fim, a sequência do grande barco cortando as ondas numa tempestade em alto mar mostra a perícia dos dois cineastas, na medida em que foram usadas pelo menos cinco câmeras: para captar o navio de longe, dentro da cabine do capitão, no convés, no corredor interno do navio e a embarcação como um todo de cima, com uma delas estando pendurada no mastro. E cada um desses ângulos nos passa a ideia de como deve ser angustiante para aquela tripulação enfrentar a colossal fúria do mar, que com suas ondas imensas invade, em alguns momentos, o convés e o interior do navio, deixando os marinheiros desesperados e, de lambuja, o público também. É um retrato perfeito da força da natureza versus a força humana. E um registro que, na vida real, é raro de se ver. Mais fácil essas tempestades estarem em filmes ficcionais, com muita chuva artificial e trovões computadorizados.
É bom ressaltar que o documentário jamais funcionaria sem o excepcional trabalho do indicado ao Oscar Bruno Coulais. A música dita o tom das cenas, seja na reunião de cardumes, que seria uma coisa banal se não recebesse nuances delicadas e agitadas da orquestra que acompanha a imagem e que usa instrumentos de cordas e metais; seja para passar o 'sentimento' dos animais, presos nas redes de pesca e acompanhados por um triste coral de vozes. Interessante observar que Coulais procura aproveitar em muitos momentos o som ambiente, com os barulhos originais se somando à trilha, o que causa um efeito fantástico, especialmente em cenas nas quais acontecem 'lutas' entre as espécies pela sua sobrevivência. Nesses momentos, ele usa a música em toda a sua plenitude, mas não deixa de colocar o registro original, aquele que é ideal para nos dar a dimensão de como é a vida no fundo do mar.
Oceanos é o tipo de projeto pelo qual o realizador tem que se apaixonar ou jamais dará certo. Isso fica evidente nas telas. Perrin e Cluzaud dedicaram-se muito para obterem o resultado que tiveram. Poderia ter sido filmado de forma banal e ser apenas mais um filme sobre a vida marítima. Mas esta obra nos oferece a oportunidade de sermos peixes e estarmos entre eles, vivenciando suas rotinas, alegrias e dores. Nada melhor do que tal experiência para conscientizar os mais reticentes da importância de se preservar o meio ambiente.
Oceanos
Dirigido por Jacques Perrin e Jacques Cluzaud (1h 44min)
Em cartaz dentro da programação do Festival Varilux de Cinema Francês

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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