
Roman Polanski encerra seu jejum de quatro anos com O Escritor Fantasma, filme estrelado por Ewan McGregor e Pierce Brosnan que, apesar de não ser ruim, tão pouco é a melhor produção já realizada pelo cineasta.
No filme, baseado em livro homônimo de Robert Harris, McGregor é um "escritor-fantasma", nome dado aos escritores contratados para redigir livros no lugar de alguém que os paga por isso. A pessoa em questão é Adam Lang (Brosnan), ex-primeiro ministro da Inglaterra, que deseja escrever a biografia de sua vida e contrata o protagonista com esse objetivo. O detalhe interessante é que McGregor é o segundo escritor contratado para o trabalho e terá apenas que revisar uma primeira versão do texto já pronta.
Quanto à parte técnica, merece destaque o roteiro, que traz um pouco de humor aqui e ali, diálogos sarcásticos e uma ironia interessante, que faz a plateia rir até mesmo em situações que não tem graça alguma ou carregam bastante tensão. A trilha instrumental, de Alexandre Desplat, também é um atrativo a parte, porque é ela que traz a tensão necessária às cenas. Bem peculiar e chamativa, nela predominam principalmente o violino, o piano e alguns instrumentos percussivos. Em momentos cruciais da narrativa, ela compõe, juntamente com fatores naturais (o tempo sempre nublado e chuvoso, percebido pelas grandes janelas de vidro em vários cômodos), o clima da casa do ex-presidente, onde se passa a maior parte do filme. E esse clima é de grande importância nesse thriller psicológico.
Para que O Escritor Fantasma funcione também é essencial o trabalho de câmera. Com ela Polanski manipula nossas emoções. O cameraman acompanha fielmente o protagonista em praticamente toda a projeção. Um bom exemplo é quando ele entra no carro: a câmera já está lá, esperando por ele. Quando ele sai, ela abre seu foco, como se se afastasse dele e o desse espaço para passar. Quando ele anda, a câmera fica atrás dele, mostrando seu ponto de vista. Se ele espia pelo 'olho mágico', vemos o que ele vê. Quando ele foge, a câmera vai com ele. O instigante desse "companheirismo" todo é que apenas em um momento crucial, no desfecho do filme, a câmera o deixa sozinho. E é isso que torna a conclusão da obra tão brilhante. Destaque para a sequência de fuga de McGregor: bem real e nos faz temer pelo que vai acontecer ao protagonista. Na verdade, tememos por ele o tempo todo. Mas especialmente nessa parte.
Não podem deixar de ser mencionadas as 'pistas' que Polanski nos dá durante toda a projeção e que vamos percebendo a medida que assistimos. É como se fosse um filme de detetive, mas Sherlock não conseguisse juntar as peças e nós observássemos atentamente tudo, fazendo o trabalho por ele. Em duas cenas, particularmente, isso está gritante: quando McGregor se senta para tomar um drink e o noticiário não para de falar de vítimas mortas por uma técnica de tortura peculiar e quando o ex-presidente sai de seu avião particular e a palavra Hatherton está escrita bem grande do lado da porta, indicando a marca do mesmo. São informações para nós que estão ali, nos dizendo coisas que o protagonista não consegue enxergar.
O desfecho é, como eu já disse e reintero, brilhante e pontua o timing do filme: uma obra dinâmica, na qual as ações acontecem no ritmo certo, que não é rápido demais nem cansa o espectador. É como se fosse uma machadada final, depois de duas horas cortando a árvore em pedaços iguais entre si Polanski vai e, de uma vez, resolve tudo, cortando a raiz de forma rápida e indolor, com precisão cirúrgica.
O filme talvez fosse melhor se Ewan McGregor fosse substituído por outro ator, mais expressivo, mas o diretor deve ter tido suas razões para escolhê-lo. Fato é que, apesar de não nos emocionar como O Pianista ou nos revoltar como Chinatown, esta é mais uma obra do francês que merece ser assistida.
O Escritor Fantasma
Dirigido por Roman Polanski (2h 08 min)
Onde está em cartaz:
Diamond Mall
Usiminas Belas Artes Cinema - (31) 3252-7232

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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