
O cinema refletindo sobre a existência em seu aspecto de desalento. Tão ampla quanto essa máxima, a mostra Lugar Nenhum: Filmes em Desalento exibe sete longas-metragens para o público do cine Humberto Mauro.
A mostra contempla diretores de Shohei Imamura a Jean-Luc Godard, de Michelangelo Antonioni a Tsai-Ming Liang. Os contextos históricos que estimularam esse desgarramento são diversos, partindo da realidade desamparada do pós-guerra e do pós-1968 até a aridez da contemporaneidade – em que as relações pessoais são mediadas pelo consumo.
Os filmes da mostra baseiam-se em personagens em situação de desconforto: não se adaptam e se inquietam. O estado que causa o desconforto não muda, por isso sofrem e se quedam em desespero. Não acham lugar no mundo – frio, impessoal, mecânico – e buscam uma saída, talvez impossível.
Em Passageiro: Profissão repórter (1975), um jornalista, aproveitando-se da morte de um desconhecido, assume sua identidade. Em A Mulher Canhota (1978), vemos uma mulher abandonar sua vida de casada e todas as convenções em direção a uma vida isolada e focada em suas aspirações pessoais.
O Buraco (1998) parte do isolamento e impessoalidade da cidade contemporânea para compor uma história em que a atmosfera asfixiante de distanciamento entre as pessoas poderia ser oxigenada pelo repentino surgimento de um buraco no chão de um apartamento. O desconforto em Desejo Profano (1964) é sobretudo físico, em que vemos a inadequação pulsante da protagonista se sobrepor às obrigações de civilidade.
Em Perdidos na Noite (1969) as esperanças continuamente perdidas apontam para a impossibilidade de libertação, mesmo em uma época em que esta se anunciava com todo alarde. A crua realidade do filme já apontava para a derrocada do espírito desta geração.
Em contraposição, temos Brown Bunny (2003), em que a causa de melancolia e vagueio é uma questão íntima e mínima; e Elogio ao Amor (2001), no qual o amor e a memória se colocam como vias possíveis para a resistência em um mundo em ruína.
Lugar Nenhum: Filmes em Desalento
Cinema Humberto Mauro
De 25/05 a 06/06
Confira a programação completa da mostra no site do Palácio das Artes.

Em Belo Horizonte, curte bares discretos, livrarias e feriados prolongados e vazios. É Jornalista, amante de literatura, música e tecnologia. Também é editor da Revista Opperaa. Siga-o no Twitter ou no Facebook.
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