
A comparação entre Cinema e Literatura é sempre injusta. Especialmente porque um livro e um filme são dois produtos culturais completamente diferentes, feitos em ritmo e forma quase opostos. Ainda assim, é impossível deixar de comparar a obra de Jorge Amado, A morte e a morte de Quincas Berro D'Água, com o filme resultante, Quincas Berro D'Água, dirigido e roteirizado por Sérgio Machado.
Isso porque o primeiro é, claramente, favorecido. Amado era um escritor competente, que sabia prender a atenção de seu leitor e encantá-lo. Já o Quincas Berro D'Água de Sérgio Machado é extremamente forçado. Artificial, com humor pouco inteligente e timing de novela das oito ou, se preferir, de uma dessas minisséries que a Globo veicula no mês de Janeiro.
Produzido por Walter Salles e Guel Arraes (cujos talentos, pelo visto, influenciam pouco a obra), o filme, narrado em primeira pessoa, conta a história de Quincas Berro D'Água, um homem que deixou sua tradicional família para se juntar aos beberrões boêmios da Bahia. Ele morre no dia do seu aniversário. Inconformados, seu amigos o levam para sua festa assim mesmo. E aí temos uma sequência de confusões envolvendo sua turma de amigos e sua família. Basicamente, acontecem situações que lembram bastante aquele clássico filme de 1989, Um Morto Muito Louco.
A intenção do filme é fazer uma homenagem a uma Bahia histórica, valorizando seus vagabundos, seus moradores de rua, seus pescadores, seus terreiros de candomblé, suas meretrizes. Era essa a essência da obra de Amado. Ele fazia isso de forma magnífica em praticamente todas as suas obras, seja em Dona Flor e Seus Dois Maridos, seja em Capitães da Areia ou até mesmo em Mar Morto. Mas Quincas Berro D'Água não faz justiça a seus personagens nem à memória do autor. Os atores são bons, conseguem alguns momentos engraçados, mas não cativam como os personagens que Amado criou. Usam recursos de humor bobos, com diálogos e cenas recheadas de referências a sexo e muitos palavrões. Era de se esperar um pouco mais do que isso do diretor de Cidade Baixa, filme selecionado para a mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes de 2005.
E ainda falando de Machado, é um realizador que até tem talento, usando a câmera de formas interessantes como, por exemplo, quando, logo nos primeiros minutos de filme, esconde o rosto do protagonista Paulo José de nós, mostrando-o apenas de longe ou de costas. Também coloca a câmera dentro do caixão, no ponto de vista do morto, olhando para seus amigos. Além disso, põe o cameraman para correr com os personagens várias vezes e deixa a imagem ficar propositalmente desfocada, em boas sequências de perseguição. Mas, ao mesmo tempo, realiza um encerramento com efeitos especiais excessivos, que tornam óbvio que a cena foi filmada em estúdio até para os espectadores mais leigos e tiram toda a sua naturalidade, tornando difícil que nos emocionemos ou nos identifiquemos com o protagonista em seu momento chave, aguardado durante todo o filme.
Destaque positivo para o trabalho do músico Beto Villares, que também foi responsável pelas trilhas sonoras do já citado Cidade Baixa, Abril Despedaçado, O ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, dentre outros. Em alguns momentos, a trilha é determinante para compor as cenas, sendo elaborada de acordo com o que elas pedem e com as peculiaridades dos personagens. Bom exemplo disso é quando Manuela (Marieta Severo) lamenta a morte do amado e fica a seu lado, triste, admirando-o na cama. A música que toca é composta por violino e violão espanhol, com acordes melancólicos e regionais, que "casam" perfeitamente com o sentimento da co-protagonista. A música fala muito mais do que a própria interpretação da atriz. E quase a supera.
Chato, sem timing de cinema, recheado de clichês, com elenco batido e humor que pouco explora nossa inteligência, Quincas Berro D'Água não é, nem de longe, um filme brasileiro que valha a pena ser visto ou que possa contribuir para formação de público. Por isso, recomendo a você que fique com o livro de Jorge Amado, que oferece uma perspectiva muito mais rica e que raramente decepciona alguém.
Quincas Berro D'Água
Dirigido por Sérgio Machado (1h 42 min)
Em cartaz em todo o país a partir de sexta-feira, 21 de maio

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
Aproveite para nos seguir no Twitter, acompanhar atualizaçoes pelo canal RSS ou enviar-nos email com sugestoes, dicas, críticas. Para anunciar, voce também pode utilizar nosso canal de contato.