
Robin Hood é um perfeito exemplo de como uma competente equipe técnica perde, sabe-se lá como, a oportunidade de fazer um bom filme. É impensável que um diretor como Ridley Scott, responsável por filmes clássicos como Alien e Blade Runner tenha se transformado nisso: um bom realizador do ponto de vista técnico, mas com senso crítico tão fraco com relação à qualidade das histórias que conta. Também é triste que um ator como Russell Crowe, que deu um show de competência em Uma Mente Brilhante, tenha se deixado levar pelo desejo de interpretar sempre o herói de época. E mais esquisito ainda é que um roteirista competente como Brian Helgeland, que recentemente provou seu talento mais uma vez com o excepcional trabalho em Zona Verde, seja responsável por um festival de diálogos batidos, que incluem pérolas do tipo "lutar até que os cordeiros virem leões", "nunca desistir" e "desunião traz destruição". Basicamente, ele destruiu a ideia original proposta por Ethan Reiff e Cyrus Voris. Mas não fez isso sozinho ou de propósito.
É de se questionar, sinceramente: o que foi que aconteceu com esses caras? O resultado da união do trio é dos piores. A história que todos nós já conhecemos de cor se passa no século 12, quando Robin Longstride luta na França como arqueiro membro do exército do Rei Ricardo Coração de Leão. Desde o início do filme ele se mostra bonzinho: ajuda o amigo em perigo, fala a verdade, é honesto. As coisas mudam de figura quando a invasão ao castelo francês termina mal e ele foge, com outros quatro companheiros. É levado a mentir, se torna mais "humano". Mas ainda é aquele mesmo herói de sempre. O roteiro não consegue nos fazer esquecer muito tempo disso. Até porque a trilha sonora é o que mais entrega tudo desde o princípio, sendo previsível e batida. Empolgante apenas nas sequências de batalha, que são o carro-chefe do filme.
Os velhos e conhecidos personagens vão aparecendo aos poucos durante a história. Temos Marion (Cate Blanchett, que interpreta, mais uma vez, o mesmo papel, ainda que sob outra roupagem), Frei Tuck (Mark Addy), o Xerife (Matthew Macfadyen) e o antagonista Godfrey (Mark Strong) com a cicatriz no rosto, personagem esse introduzido pelas versões cinematográficas mais recentes da lenda, especialmente os dois filmes de 1991, um protagonizado por Kevin Costner e outro com Uma Thurman como Marion. Ou seja, do ponto de vista do enredo, não há grandes novidades ou emoções. Não acredite no que o marketing e a publicidade do filme estão tentando te vender. É bobagem. Crowe é o mesmo Robin Hood de sempre. Mas emociona muito menos do que tantas outras versões, especialmente a de 1938, com Errol Flynn como o protagonista. Esta versão, uma raridade, é considerada por muitos como a definitiva da lenda de Nottingham.
O melhor que o filme pode oferecer, e não é pouco, é entretenimento de qualidade a aqueles apaixonados por cenas de ação eletrizantes. Isso ele tem de sobra. São inúmeras as câmeras usadas nas sequências de batalha, que se mexem, tremem e filmam de dentro cada cantinho da guerra, cada flecha que cai, cada morte, cada soldado. O resultado é estarrecedor. E de uma perícia técnica inquestionável. É como se estivéssemos participando dos conflitos. A filmagem das lutas, especialmente na batalha principal, são de uma competência extrema. E também merecem destaque as cenas externas nas florestas e em meio a paisagens naturais maravilhosas, que usam câmeras aéreas, resultando em belíssimos cenários. No geral, as imagens e enquadramentos são bonitos, muito poéticos. Silhuetas em frente ao fogo, uma bandeira que o mar se encarrega de hastear, tudo isso emociona e conquista muitos dos espectadores que buscam esse filme para isso mesmo, se distraírem um pouco, sem se preocuparem com detalhes como verossimilhança ou clichês.
Até que uma pontual flechada, num momento em que seria o clímax do filme, estraga tudo e a obra desaba bem em frente aos nossos olhos. É de chorar de tristeza. Tudo que foi construído até aquele momento e que foi sustentado a muito custo pela equipe técnica e até mesmo pelos atores vai por água abaixo. É o fim do filme para aquelas pessoas que, até então, estavam dando uma chance a ele. O slow motion e tudo o mais que se segue até o final o transforma definitivamente num insuportável festival de clichês inaceitável, que torna Robin Hood inverossímel até o último fio de cabelo de Crowe. E isso numa história que está sendo vendida para o público como a versão mais próxima do que foi o personagem real. Simplesmente lamentável. Decepção total.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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