
Adam Elliot pode até ser um desconhecido aqui no Brasil, mas não só em Hollywood como em festivais de cinema de todo o mundo seu nome é respeitado e bastante admirado. O diretor australiano, cuja especialidade é a animação em massinha, tem uma carreira curta e características peculiares de trabalho. Sua primeira animação, ainda como estudante do Victorian College of the Arts, foi Tio, na qual conta, de maneira minimalista, a respeito do relacionamento com seus oito tios. Em seguida fez Primo, na qual relata sobre a infância, convivendo com um primo que tem paralisia cerebral. Finalizando a trilgolia, temos Irmão, uma autobiografia disfarçada.
O trabalho que se seguiu foi Harvie Krumpet, vencedor do Oscar em 2004 na categoria Melhor Curta de Animação. Seu primeiro longa metragem é Mary e Max - Uma amizade diferente, que está entrando em cartaz no Brasil. Baseado em fatos reais, o filme conta a história de Mary, que tem oito anos, mora na Austrália e é uma garotinha que sonha em ter uma amizade verdadeira. Um dia, ela decide escrever para alguém, na esperança de que aquela pessoa possa se tornar sua amiga. O escolhido é Max, que tem 44 anos, 160 kg e que também sonha em ter uma amizade. Os dois começam a corresponder-se, contando a respeito de suas rotinas.
Visualmente falando, a primeira coisa que se nota a respeito do filme, e que é gritante, é o uso da palheta de cor marrom para a parte da história que se passa na Australia e cinza para aquela que é de Nova York. Isso se dá, claramente, com a intenção de mostrar que, mesmo sofrendo com a rotina familiar e escolar, Mary tem uma vida mais "colorida" no subúrbio que vive do que Max, na impessoal e fria Grande Maçã. Essa divisão fica ainda mais evidenciada quando Max ganha um gorro vermelho, que, juntamente com um desenho, são seus dois únicos itens coloridos. O fato dos objetos serem destacados pela cor é totalmente proposital e comum em quase todas as obras de Elliot. Ele filma originalmente tudo colorido e joga a escala de cinza por cima, o que permite que ele "brinque" com a cor dos objetos. O diretor encara isso como uma espécie de homenagem ao trabalho de Steven Spilberg em "A Lista de Schindler".
Essa é apenas uma das curiosidades em torno da realização da obra, que levou cinco anos para ser concluída, sem usar efeitos especiais computadorizados na sua pós-produção. Elliot sempre gostou das técnicas mais "tradicionais" de cinema, resistindo até mesmo à edição digital em AVID, que adotou apenas em trabalhos mais recentes. Seu primeiro filme foi editado linearmente, numa Steenbeck. Mary e Max envolveu uma equipe de 120 pessoas, especialmente seis animadores, que filmaram 57 semanas sem parar, em stopmotion. Devido aos custos e ao tempo dispendido nesse tipo de trabalho, animações assim praticamente deixaram de existir no grande circuito. O filme custou cerca de 8.3 milhões de dólares australianos.
A voz de Mary é interpretada por Bethany Whitmore e por Toni Collette (A mãe da Pequena Miss Sunshine). Já Max é feito pelo vencedor do Oscar Philip Seymour Hoffman, num excelente trabalho vocal, que nos deixa totalmente familiarizados com a natureza rabugenta do protagonista. Também merece destaque Eric Bana (Hulk), como o frágil Damien, cuja voz está irreconhecível, sendo impressionante o quanto o ator foi capaz de entrar no personagem e lhe dar vida. O trio capricha e mostra a importância de, numa animação, uma interpretação bem construída e dirigida, para que o filme funcione.
Outro elemento importante da obra é sua trilha sonora instrumental, extremamente bem planejada por Dale Cornelius. Se na Australia temos uma música mais animada, que "joga" o filme "pra cima", Nova York é mostrada para nós sob o som de violinos tristonhos, que nos contam o estado de espírito de Max, extremamente introvertido e solitário. As músicas incindentais também são muito bonitas e bem escolhidas, a exemplo de Que Sera Sera, de Doris Day, que compõe um dos momentos mais bonitos e tristes do filme. Juntamente com as cores e a narração, as músicas constroem um panorama complementar ao enredo do personagens, uma história a parte que dá significado à outra. O resultado é um filme emocionante e inteligente, que respeita o espectador e sugere as coisas, o deixando concluir, por si próprio, onde essa amizade incomum vai dar.
Mary e Max é um filme difícil de definir. Se nos dias individualistas de hoje a amizade é algo que, aparentemente, saiu de moda, temos nessa obra um brilhante exemplo de como tanto esse sentimento como a arte de fazer Cinema estão mais vivos do que nunca. De um jeito simples, bonito e bem feito Elliot nos faz refletir sobre as nossas vidas e sobre o que realmente vale a pena. E isso usando não só massa de modelar e técnicas cinematográficas mas, especialmente, sensibilidade.
Mary e Max - Uma amizade diferente
Dirigido por Adam Elliot (1h 32)
Entra em cartaz em BH a partir da próxima sexta-feira, 21 de maio

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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