
*Fotos de Samanta Coan
O que esperar de um espetáculo que reúne alguns sucessos de grupos e artistas dos anos 1970 e 1980 como Bauhaus, Depeche Mode, New Order, Gary Numan, The Cramps, The Clash, Sex Pistols, The Cure, Dead Kennedys, Talking Heads, Violent Femmes, Joy Division, The Specials, The Police e Minimal Compact?
Imagine agora essa seleção musical transformada pelos olhares distintos e originais de dois produtores franceses, Marc Collin e Olivier Libaux, pelo talento e pelas influências de músicos de diferentes origens e pelas singulares vozes de cantoras brasileiras e francesas. Pode parecer difícil descrever o resultado desse processo, mas é muito fácil apreciá-lo. Basta conferir – com inevitável prazer – o trabalho do coletivo Nouvelle Vague e se deixar levar por uma sonoridade completamente inédita.
Apesar de parecer paradoxal falar em ineditismo ao se tratar de um grupo que faz covers, o trabalho do Nouvelle Vague não pode ser considerado simplesmente releituras de outros artistas. Tão fácil quanto afirmar isso é confirmá-lo, tamanha a personalidade presente no processo de recriação das músicas selecionadas pelo grupo.
Não é por acaso que o Nouvelle Vague tem viajado e encantado o mundo se apresentando com êxito e equilíbrio as canções de seus três álbuns: Nouvelle Vague (2004), Bande À Part (2006) e 3 (2009).
Em Belo Horizonte, isso não foi diferente. Marcado para acontecer no principal palco de Minas Gerais, o Grande Teatro do Palácio das Artes, o espetáculo atraiu uma multidão de curiosos e de admiradores da pluralidade artística do Nouvelle Vague.
Diferentemente do que costuma acontecer em eventos de menor apelo popular em Belo Horizonte, nos quais sobram ingressos e lugares vazios, os cambistas, momentos antes desse show, continuavam buscando desistentes de quem poderiam comprar a entrada para posteriormente revendê-la. Infelizmente, eles também servem como termômetro para saber se um evento será ou não bem-sucedido.
Se os cambistas puderam faturar em uma noite agradável de maio na capital mineira, os espectadores do Nouvelle Vague puderam viver uma experiência tão intensa que, se era dia ou noite, se fazia frio ou calor, isso pouco importava. Desde o início do show, já foi possível se desligar e viver toda aquela nova realidade que se abria ante os sentidos e penetrava a alma, provocando em cada um uma sensação diversa, algo que só é possível através da arte.
A primeira música tocada foi a releitura genial - e sensual - de Bela Lugosi’s Dead, do Bauhaus, presente no álbum Bande À Part (2006), com uma interpretação magistral da cantora brasileira Karina Zeviani, enquanto Helena Nogueira, cantora belga de ascendência portuguesa, jazia no palco para finalmente despertar sua voz nos últimos versos da canção.
Zeviani e Nogueira merecem um destaque a parte. As duas cantoras demonstram durante todo o espetáculo uma afinidade e energia quase adolescente, tanto que fica difícil não se deixar contagiar pela simpatia, talento e competência na condução dos vocais.
Das 22 músicas tocadas – confira o setlist mais abaixo –, é possível destacar também as faixas Ever Fallen In Love, cover do grupo The Buzzcocks, em que se percebeu toda a sintonia das duas cantoras; Just Can’t Get Enough, do Depeche Mode, com clara influência da música brasileira; Human Fly, cover de The Cramps, que tem uma levada expressiva ao melhor estilo do blues; God Save The Queen, do Sex Pistols, executada apenas com voz e violão em um ritmo espirituoso; I Melt With You, música do grupo Modern English, que foi apresentada em um dos momentos mais delicados do show com uma bela combinação das vozes das duas cantoras; e Friday Night, Saturday Morning, do The Specials, e Love Will Tear Us Apart, do Joy Division, que encerraram o show em um momento de pura interação entre o grupo e o público.
Para completar, o Nouvelle Vague voltou ao palco por mais duas vezes. Na primeira, executou a música So Lonely, cover de The Police, faixa do álbum 3; no segundo bis, o grupo tocou duas faixas do mesmo álbum: A Forest, do The Cure, e Not Knowing, do Minimal Compact, com um ritmo flamenco contagiante. Para encerrar definitivamente, Helena Nogueira se sentou à beira do palco e cantou acompanhada de violão e percussão a belíssima In A Manner Of Speaking, do grupo Tuxedomoon, faixa do primeiro álbum do Nouvelle Vague.
O show é um retorno renovador à new wave, com um toque pluralista, cheio de irreverência, diversão, sensualidade, contemplação, intimismo, interação e primor artístico. Uma experiência musical completa difícil de ser rotulada por significar um momento de lembrança e inovação e por oferecer, pelos ritmos e letras tão diversos, um contato com inúmeras possibilidades de sensações. De uma noite como essa, restam apenas a lembrança de um espetáculo prazeroso e a esperança de um breve retorno, com a promessa de lançamento de um novo álbum, que será todo em francês, para o segundo semestre de 2010.
Confira abaixo as músicas – e seus respectivos álbuns – tocadas na passagem do Nouvelle Vague por Belo Horizonte no dia 5 de maio de 2010:
Bela Lugosi’s Dead (Bauhaus) – Bande À Part
Master & Servant (Depeche Mode) – 3
Ever Fallen In Love (The Buzzcocks) – Bande À Part
Blue Monday (New Order) – Bande À Part
Making Plans For Nigel (XTC) – Nouvelle Vague
Metal (Gary Numan) – 3
Just Can’t Get Enough (Depeche Mode) – Nouvelle Vague
Human Fly (The Cramps) – Bande À Part
Guns Of Brixton (The Clash) – Nouvelle Vague
Too Drunk Too Fuck (Dead Kennedys) – Nouvelle Vague
God Save The Queen (Sex Pistols) – 3
Dance With Me (Lords Of The New Church) – Bande À Part
(This Is Not) A Love Song (Public Image Ltd.) – Nouvelle Vague
I Melt With You (Modern English) – Nouvelle Vague
Road To Nowhere (Talking Heads) – 3
Blister In The Sun (Violent Femmes) – 3
Friday Night, Saturday Morning (The Specials) – Nouvelle Vague
Love Will Tear Us Apart (Joy Division) – Nouvelle Vague
So Lonely (The Police) – 3
A Forest (The Cure) – Nouvelle Vague
Not Knowing (Minimal Compact) – 3 (edição britânica limitada)
In A Manner Of Speaking (Tuxedomoon) – Nouvelle Vague

Anda perdido pelos caminhos da ficção, tem ideias subversivas, ânimo incerto e um relacionamento aberto com o Cinema, as Letras e a Comunicação. Gosta de vozes femininas e imagens escondidas. Erra com as palavras e não raramente tropeça numa verdade. É jornalista e mestrando em Teoria da Literatura.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
Aproveite para nos seguir no Twitter, acompanhar atualizaçoes pelo canal RSS ou enviar-nos email com sugestoes, dicas, críticas. Para anunciar, voce também pode utilizar nosso canal de contato.