
Inegável o gosto que os irmãos Cohen possuem para retratar o nonsense em suas produções. Numa parceria mais do que profícua, Joel e Ethan já dirigiram mais de 15 filmes, todos eles apresentando visões bem peculiares de mundo, sejam elas produzidas sob um viés cômico, mas crítico, como é o caso de Um Homem Sério; ou sejam aventuras recheadas de violência e situações inusitadas, como Onde os Fracos Não Tem Vez.
Em Um Homem Sério, a principal crítica é à religiosidade. Lawrence Gopnik (Michael Stuhlbarg) é judeu, casado e tem dois filhos. O mais novo deles, Danny (Aaron Wolff), está se preparando para o Bar Mitzvá, cerimonia que comemora o alcance da maioridade pelos homens judeus. Faltando cerca de duas semanas para a realização da festa, tudo começa a dar errado na vida de Gopnik: a esposa Judith (Sari Lennick) pede o guet (divórcio permitido pela religião deles), a universidade onde ele dá aula de Física começa a receber cartas difamatórias contra ele e um aluno tenta suborná-lo para ser aprovado e não perder a bolsa de estudo. E isso eu não contei nem 1% das coisas que acontecem com o pobre coitado.
Fato é que ele tenta uma, duas, três vezes recorrer aos rabinos, para que lhe dêem as respostas que tanto anseia: porque todas estas coisas estão acontecendo justo com ele? Como ele deve encará-las? Serão algum tipo de sinal divino? Ele é um homem desesperado. E o clássico caso da pessoa que precisa de algum sinal dos céus para prosseguir.
Concorrendo aos Oscars de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme, Um Homem Sério é recheado de particularidades da cultura judaica a que devemos ficar atentos e possui diálogos cujo humor negro está não está apenas no que é dito, mas na forma como isso "casa" com as imagens. Num de seus momentos mais marcantes, o chamado "caso do goy", é que isso fica mais explícito. Enquanto o Rabino Nachtner (George Wyner, numa interpretação sensacional) conta para Gopnik o caso, as imagens que vemos são exatamente o que ele descreve. Por exemplo, ele diz: "o dentista examinou sua mulher" e vemos o dentista examinando a mulher, enquanto ela dorme. Se o filme fosse todo assim, seria cansativo. Mas como é apenas por um período curto, surte inevitável efeito cômico. Até por causa do contexto em que é contada a história e devido a seu desfecho.
Todos os personagens são bem caricatos e recheados de clichês. Sejam a secretária velha e gorda, a mãe judia, o amigão grudento, a adolescente que só quer saber do cabelo ou a vizinha gostosa. Apesar disso, eles são bastante imprevisíveis e constantemente nos surpreendem. Até mesmo quando agem dentro do esperado.
Quanto ao jeito de filmar dos Cohen, eles gostam de fazer certos cortes e paralelos interessantes em seus filmes. Logo no início, vemos uma auréola mínima num fundo preto, que cresce até se tornar a parte interna de um ouvido. Em seguida, vemos Danny em sua aula, escutando música, enquanto o pai tem o seu ouvido examinado num consultório médico. As cenas do que acontece com um e outro, justapostas, nos dão a impressão de que ambos seguirão um destino em comum ao longo da projeção. Esse mesmo tipo de paralelo também é feito em outros momentos e com outros personagens como, por exemplo, quando Gopnik e Sy Ableman (Fred Melamed) dirigem seus carros, cada um seguindo o seu caminho.
A trilha sonora é composta, basicamente, por música instrumental, canções que evocam a cultura judaica e Jefferson Airplane, uma banda psicodélica de 1965. É a banda cujas músicas o garoto ouve ininterruptamente em seu rádio e no filme estão seus principais sucessos como Somebody To Love e White Rabbit. Num momento hilário, são citados, inclusive, o nome dos seus integrantes. É a sonoridade desse grupo que dita o ritmo do filme, em várias de suas melhores sequências.
Merecem destaque em suas atuações Stuhlbarg, Fred Melamed e o jovem Aaron Wolff, como um judeu desinteressado de tudo e cujo comportamento antecipa as quebras de paradigmas que a década de 60 presenciaria nos anos seguintes. George Wyner e Simon Helberg também estão excelentes, este último especialmente quando começa a falar sem parar do estacionamento. Seu discurso critica de maneira sutil alguns recursos comuns em livros e palestras de auto-ajuda.
Podemos dizer que Um Homem Sério é uma produção que critica a aqueles que não tomam atitudes por si próprios, que se preocupam em ser corretos o tempo todo e deixam a religião ser seu guia pela vida. Não há uma veiculação específica com o Judaísmo (apesar de nos créditos finais haver até o aviso "Judeus não foram machucados durante as filmagens", uma piadinha básica). Poderia ser qualquer religião. O que a obra nos ensina, de maneira muito divertida, são lições básicas sobre a vida.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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