
Imagine você ter, acessível aos seus dedos, em qualquer hora do dia ou em qualquer lugar, o conteúdo completo de um Museu? Ficou intrigado? Pois saiba que é isso que o site ERA Virtual tem proporcionado. E gratuitamente.
Através do site www.eravirtual.org, o usuário poderá ter acesso imediato a todas as peças do Museu de Artes e Ofícios, à Casa Fiat de Cultura (ambos em Belo Horizonte), ao Museu do Oratório, em Ouro Preto, ao Museu Nacional do Mar, em Santa Catarina e até mesmo à Casa de Cora Coralina, em Goiás. E isso não é tudo. Até o final do ano, o acervo de outros sete museus de várias partes do país estarão disponibilizados para consulta. E esse contato se dá de uma forma bastante inusitada: a visita aos museus é feita da forma mais próxima à realidade possível, com acesso a todos os cômodos, visão em 360º de todas as partes e até mesmo a possibilidade de se dar zoom em alguns artefatos pequenos.
O Mondo BHZ conversou a respeito do projeto conjuntamente com a produtora executiva Carla Sandim e o diretor Rodrigo Coelho, idealizadores do ERA Virtual.
1. Você concebeu o projeto pensando em atingir algum público específico?
Sim, inicialmente pensamos no público estudantil, além do internauta. Criar uma ferramenta para que professores pudessem montar aulas a partir do conhecimento organizado dentro dos mais diversos museus era um dos principais objetivos. Isto é notável na execução do projeto já que, ao final de 2010, serão distribuídos às escolas e bibliotecas públicas um cd-rom contendo as 12 visitas virtuais aos museus brasileiros que temos atualmente no site. No total, serão 5.000 cd-roms. A estratégia de adoção do cd-rom se deu mesmo havendo um programa do Governo Federal de acesso à internet nas escolas (até final do ano serão 63 mil escolas públicas conectadas à internet, números que significam mais de 80% dos alunos da rede básica de ensino, mais de 63 mil alunos, segundo o ministro Fernando Haddad).
2. Como você driblou a resistência dos museus que não queriam disponibilizar seus acervos na internet? Porque alguns deles estavam tão reticentes?
O voto de confiança dos museus foi conseguido por meio da atuação da museóloga do projeto, Célia Corsino, profissional reconhecida nacionalmente pelo seu trabalho de qualidade e por sua consultoria realizada junto à UNESCO.
Em um primeiro momento, a resistência surgiu por não se considerar as visitas à versão online do museu como visitações, o que é um equívoco! As visitas online devem e serão contabilizadas como visitas ao museu, pois o internauta pode acessar o conhecimento organizado naquele espaço tanto quanto o visitante real. Relatórios da visitação online serão enviados aos museus participants do projeto a cada 6 meses.
Outro engano foi pensar que o museu virtual faria com que a população perdesse o interesse em visitar fisicamente o museu real. Novamente, um mito! Se refletirmos um pouco a partir dos dados do IBGE de que 92% da população brasileira nunca visitou galerias de arte ou museus é óbvio que nos parece que a população desconhece o que há dentro de um museu. Dessa forma, acreditamos que mostrar esse conteúdo fará com que eles se tornem objetos de desejo. Afinal, só desejamos aquilo que conhecemos. Tomemos como um esclarecedor exemplo o caso da obra de Leonardo da Vinci, a Monalisa. Essa obra é massificadamente divulgada e, ao mesmo tempo, tem o maior índice de visitação no Museu do Louvre, que, por sua vez, é o museu mais visitado do mundo.
Após expôr os argumentos aqui citados e a publicação do conteúdo dos museus on line, com consequente repercussão bem sucedida na mídia, as resistências estão desaparecendo aos poucos. O que vem acontecendo é o aumento no número do contato de museus de todo o Brasil requisitando a construção virtual de suas exposições.
3. Interessante observar que o site é bastante interativo e disponibiliza não só imagens, mas audio e informações por escrito também. De onde veio a ideia de usar essas ferramentas de acessibilidade, que também permitem a cegos e surdos a apreensão de informações?
No processo de desenvolvimento do ERA Virtual fizemos uma intensa e exaustiva pesquisa nos sites dos mais diversos e importantes museus do mundo. Alguns apresentavam inovações em um determinado setor, outros de diferentes formas, mas nunca nos pareciam completos e suficientemente interativos.
Com muita criatividade e estudo fomos, num processo antropofágico, assimilando as tendências e expondo nossas ferramentas. A ideia importada do "tour virtual" foi adotada segundo os conselhos de Oswald de Andrade e de Tarsila do Amaral no Manifesto Antropofágico, de 1928, que propunha: "Devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação".
A acessibilidade foi apenas consequência do profundo desejo de democratizar o acesso à cultura e ao conhecimento sobre o Brasil, que estão reunidos nos mais diversos projetos museográficos. Alguns fatores garantem a amplitude do acesso: áudio para cegos, imagem interativa e locução transcrita para surdos, um projeto acessível de quaisquer computadores ao redor do mundo por meio da internet (até mesmo aquela de baixa velocidade) e visitas virtuais em quatro idiomas (português, inglês, espanhol e francês). Esse conjunto garante o acesso aos museus até mesmo para aqueles que não podem nem mesmo sair de uma cama ou estejam enfermos.
4. Podemos dizer que o ERA Virtual também é um projeto social, na medida em que incentiva as pessoas a conhecerem mais sobre a história do país?
Sem dúvida! Essa resposta é um complemento à primeira pergunta.
O ERA Virtual demonstrou ser um projeto de cunho essencialmente social. Antes estávamos focados na produção de um tipo de material didático, mas agora percebemos o portal como um serviço de utilidade pública. A possibilidade de se entrar em contato com o conhecimento reunido em um museu não era tão ampla como poderíamos pensar. Segundo dados do IBRAM, 80% dos municípios brasileiros não possuem espaços de memória ou galerias de arte.
No entanto, contrapondo-se à esta realidade, 64,5 milhões de brasileiros têm acesso a internet e esse número vem crescendo vertiginosamente nos últimos anos (de acordo com pesquisa do Comitê Gestor de Internet brasileiro publicada no 1º trimestre de 2009). Reflexo dessa realidade são percebidos no livro de visitas do nosso próprio site, no qual muitas mensagens são sobre a maravilha de se poder visitar museus mesmo não tendo nenhum em sua cidade ou não havendo nenhuma perspectiva de viagem às cidades-sede dos museus participantes. A internet já chegou em locais onde ainda não foi construído um museu.
Por meio das visitas virtuais tornou-se possível atrair jovens aos museus, levar o museu àqueles que não poderiam ir até eles e divulgar as entidades museais de forma inusitada.
Acesse o site do projeto ERA Virtual e confira por si próprio a riqueza que os museus brasileiros tem a oferecer.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
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