
Laís Bodanzky tem uma carreira curta e é pouco conhecida no país. Ainda assim, tem como sua obra de estreia um dos filmes brasileiros mais marcantes dos últimos 20 anos: Bicho de Sete Cabeças, protagonizado por Rodrigo Santoro. Seu mais recente lançamento, As Melhores Coisas do Mundo, é apenas seu terceiro longa. E já indica o quanto ela ainda tem a oferecer.
A idealizadora do projeto Cine Tela Brasil (que leva um cinema itinerante gratuitamente a vários municípios pequenos do interior do Rio de Janeiro e São Paulo) realizou o filme tendo como base a série de livros Mano, escrita pelo jornalista e educador Gilberto Dimenstein em parceria com a jornalista Heloísa Prieto. O filme tinha tudo pra se tornar uma espécie de Malhação no cinema. Mas é muito mais próximo que isso da realidade que os adolescentes vivem. Na verdade, a obra engloba vários elementos contemporâneos: o uso do celular como ferramenta de interatividade social (para o bem ou para o mal), a presença ostensiva da câmera digital e do MP3 dentro e fora das salas de aula, e o desfrute dos prazeres "proibidos": a bebida alcoólica, o cigarro, a pornografia na internet e até mesmo o famigerado narguilé.
O cotidiano de Mano (Francisco Miguez) é composto, ainda, por elementos que são comuns não só aos adolescentes de hoje, mas aos de diversas gerações, aspectos que são inerentes ao próprio ambiente escolar como, por exemplo, a eleição de grêmio estudantil, peças teatrais na escola, aulas em laboratório, desenhos maldosos em murais, fofoca, bilhetinhos passados durante a aula, enfim, tudo aquilo que faz os mais velhos até se sentirem um pouco nostálgicos, por ser muito ligado a aquele ambiente. O uso da linguagem peculiar (palavras como afe e tosco estão inseridas naturalmente nos diálogos) é outro elemento que reforça em nós a ideia de que Laís estudou bastante para entender a fundo do que estava falando.
Considero excelente a forma que a cineasta escolheu para abordar assuntos sérios como o bulling, a homofobia e, principalmente, a eterna questão de como se encarar aquele que é diferente de nós, seja por que motivo for. Com exceção do primeiro, os outros dois são questões em pauta não só entre os adolescentes, mas entre pessoas de todas as idades e de todo o mundo, permitindo que a obra dialogue com diversos públicos. Também temos uma crítica interessante e pseudovelada à imprensa marrom, que resulta numa análise do conceito de notícia e da construção desta.
O filme tem seus méritos, especialmente por ser direcionado ao público infanto-juvenil. Mas antes de entrar nos seus elementos relacionados a formação de público, tratemos primeiro da parte técnica, que mostra que a cineasta escolheu uma equipe compentente para trabalhar consigo. Primeiramente, merece destaque o fato do longa ter edição e mixagem de som muito bem feitos. Para ficar apenas num exemplo, prestemos atenção em quando a abertura do filme começa, numa sequência que apresenta todo o elenco de maneira lúdica. Nesse momento, toca a música tema do filme. E essa canção da abertura termina num ponto x, que é exatamente de onde ela recomeça como som ambiente no início da primeira cena do filme posterior a essa abertura. Seria por acaso? Tenha certeza que não. Isso dá uma ideia de continuidade e mostra um planejamento por detrás do conjunto como um todo.
Esse planejamento também aparece em diversas sequências interessantes do filme. Um exemplo é quando Mano fica sentado pensando na vida em dois momentos: em meio ao trânsito e num banco da escola, com tudo acontecendo ao redor dele. A ideia é mostrar que o tempo passa, mas o sofrimento do protagonista permanece. E o foco é no que ele está sentindo.
Ainda merecem destaque aqueles momentos em que a cineasta considera oportuno usar os recursos da imagem desfocada, sem som ou em slow motion. Alguns deles resultam em sequências emocionantes e bonitas. Os recursos trabalham a favor da história. E, no caso do slow motion, há um cuidado, pois o seu uso excessivo geraria, inevitavelmente, clichês fracos. Quanto aos movimentos de câmera, nenhuma novidade. Em alguns momentos ela está em locais inusitados, como dentro de um violão. Mas, fora isso, nada de mais.
As Melhores Coisas do Mundo é uma das poucas produções cujo objetivo é, claramente, educar e formar público infanto-juvenil para reconhecer o bom cinema, aquele que é bem executado, feito de forma inteligente e que foge da superficialidade cotidiana dos demais meios de comunicação. Sem deixar de leve e engraçado, o longa se aprofunda numa série de questões, dialogando diretamente com os adolescentes (ao contrário de algumas novelas e outros filmes estrangeiros na mesma linha). Além disso, é um mergulho delicioso na mente dos jovens, nos relembrando a todos de como éramos quando tínhamos 15 anos. Laís consegue, mais uma vez, montar um quebra-cabeças equilibrado, comedido, que nos faz ansiar pelo que virá. Aguardemos.
As Melhores Coisas do Mundo
Dirigido por Laís Bodanzky (1h 47 min)
Saiba onde está em cartaz

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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