
Não há dúvidas que o nome Hilda Hilst ocupa lugar privilegiado no imaginário da literatura brasileira. Poetisa, escritora e dramaturga, sua obra é, constantemente, suporte para estudos, releituras e reflexões.
Ressaltando a relevância da produção de Hilda, o escritor, professor e diretor teatral Juarez Guimarães Dias, acaba de publicar o livro O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em Fluxo-floema. O lançamento acontece no próximo dia na Livraria Quixote, dia 24 de abril de 2010, das 11h às 14h. Oriundo de dissertação homônima defendida em 2005 no Mestrado Literaturas de Língua Portuguesa, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a obra investiga a multiplicidade de vozes narrativas, o caráter especular autor/narrador e o estudo da linguagem nas ficções da referida obra de Hilda Hilst. No trabalho de Juarez, foram analisadas as cinco narrativas que compõem a obra, com destaque primordial para Osmo, Fluxo e O Unicórnio, que apresentam mais características em comum.
Confira entrevista com o autor:
A escolha por Hilda Hilst parece ter sido natural, sobretudo por sua ligação com a autora no campo acadêmico. Mas quando, e como, a obra dela começou a fazer parte de sua vida?
Fui apresentado à Hilda por um amigo que me presentou com um exemplar do "Ficções". Até então nunca tinha ouvido falar dela, nem de seu trabalho e esse livro me transtornou. Não havia ainda me deparado com essa escrita tão singular, perturbadora e desafiadora. Daí, pus-me a investigar sobre quem era ela, descobri sua vasta produção literária e sua amargura pelo desconhecimento do público leitor mais geral e das críticas ácidas que recebia. A Cia. de Outros Atores, que eu dirigia junto com outras duas artistas, Janine Avelar e Cristina Gil, na época, se propôs a fazer um evento em que pudéssemos apresentar um pouco mais da Hilda e seu trabalho para o público de Belo Horizonte, que praticamente a desconhecia, não fossem os leitores especializados e mais cults. Fizemos o "Círculo de Atividades Integradas Hilda Hilst', um grande evento em BH e depois dirigi a primeira montagem da peça "A Possessa (A Empresa)", o primeiro texto teatral que ela havia escrito em sua carreira. Experimentando essa obra de forma empírica, lendo, fazendo adaptações e leituras, saraus, decidi entrar no Mestrado para aprofundar meu conhecimento e investigar O "Fluxo-floema" mais verticalmente, com suporte teórico e orientação.
A propósito, você chegou a conhecer a autora? Como foi?
Em função do "Círculo...", fomos até a Casa do Sol, em 2002, conhecer pessoalmente a Hilda e fechar as autorizações pro evento. Foi um encontro inesquecível. Quando chegamos, todos da casa haviam saído, mas não sabíamos. O táxi entrou na chácara e os vários cães nos recepcionaram. Ao pararmos na porta da casa, nos deparamos coma Hilda vindo de dentro nos receber. Foi um susto, foi emocionante e foi incrível, tudo ao mesmo tempo. Conhecíamos o mito pelas leituras, mas ali estávamos diante da pessoa, humanizada, com a saúde frágil, no seu habitat. Passamos o dia conversando, enquanto ela fumava os longos cigarros Canceller. Depois, eu voltei mais uma vez enquanto estava viva e fiquei hospedado na Casa do Sol, em companhia da Hilda, do Mora Fuentes (escritor) e da Olga (artista plástica) que lá viviam. A Hilda era mulher extraordinária, inteligentíssima, divertida, gostava de conversar sobre qualquer assunto. Menos sobre seus livros. Dizia que seu trabalho era escrever e dos outros entender o que havia escrito. Uma figura fascinante. Ficamos brevemente amigos e vez em quando nos falávamos por telefone.
Sobre O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em Fluxo-floema, o que o leitor pode esperar em termos de forma, enredo...?
Trata-se de um mergulho em algumas ficções do livro "Fluxo-floema", em que busquei investigar a multiplicidade de vozes narrativas, o fluxo verborrágico da escrita ficcional, a relação especular autor/narrador e o estudo da linguagem. Contém uma biografia da Hilda e traços de sua obra, de forma mais geral. Desejei traçar uma ponte que pudesse ajudar o público leitor de encontro à obra e sua autora. Dirige-se tanto ao leitor comum quanto o especializado, pois acredito que é importante o conhecimento produzido academicamente circular e chegar até a sociedade.
Já no campo das Artes Cênicas, você também tem investigações e adaptações sobre a autora. Como ela influencia sua atuação neste campo?
A escrita ficcional de Hilda Hilst contém elementos dramáticos, por meio de diálogos que constituem parte de sua elaboração textual, o que encontra lugar no palco. Parecem que foram, em certa medida, escritos para a encenação. Já adaptei o conto "O grande-pequeno Jozú" (dirigido por Sávio William) e adaptei e dirigi "O unicórnio", numa montagem que levava o título "Do desespero de contar uma história ou da arte de ser um unicórnio". Por meio desses textos, pude ampliar minha percepção de uma dramaturgia que contenha elementos poéticos, uma escrita diferenciada e singular. Esses trabalhos me proporcionaram experimentar minha pesquisa cênica de teatralização de textos literários e promover deslocamentos do livro para a encenação. Essa é a minha praia no teatro, contar histórias bebendo na fonte mais primária delas, a narrativa.
Confira mais sobre a obra no site da editora Anna Blume.
Lançamento nacional do livro O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em Fluxo-floema, de Juarez Guimarães Dias
24 de abril, sábado, das 11h às 14h
Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi)

Em Belo Horizonte, curte bares discretos, livrarias e feriados prolongados e vazios. É Jornalista, amante de literatura, música e tecnologia. Também é editor da Revista Opperaa. Siga-o no Twitter ou no Facebook.
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