
O cineasta Paul Greengrass repete a parceria de sucesso com Matt Damon em Zona Verde, filme que aborda de maneira contundente a Guerra no Iraque, iniciada em março de 2003 pelos Estados Unidos. Inspirado em A Vida Imperial na Cidade Esmeralda, livro escrito pelo jornalista do The Washington Post Rajiv Chandrasekaran, o filme conta a história de Roy Miller, chefe de uma das unidades militares que esteve em Bagdá buscando por armas de destruição em massa. Apesar de ser um personagem ficcional e da história dele ter sido livremente baseada no livro, há uma análise bastante contundente e corajosa na obra de Greengrass, que chega a nos convencer de que tudo o que é mostrado de fato ocorreu.
O filme começa pouco depois que a invasão norte-americana acontece e mostra o chefe militar chegando até um local para a localização de armas de destruição em massa. Essa sequência inicial define bem como será o filme todo: a câmera é nervosa, mexe o tempo todo, corre junto com os personagens, as imagens são tremidas e dão ao público uma boa ideia do que seria o clima agitado da guerra, com caos e confusão por todos os lados. Os diálogos, atores, tudo está em alta velocidade, sendo filmado por muitas câmeras simultaneamente, tudo isso contribuindo para que fiquemos tensos, apreensivos pelo que está por vir. Tudo se acalma quando a missão termina, tanto as câmeras quanto o elenco, mostrando uma sincronia muito similar à de uma orquestra. Essa calmaria dá o gancho ideal para a próxima cena e será decisiva para a nossa compreensão do restante do filme.
A trilha sonora instrumental também contribui bastante para construir o "clima" da guerra, especialmente nas sempre excelente cenas de luta e sequências de ação de Greengrass, na qual ele praticamente se tornou um perito a partir de Ultimato e Supremacia Bourne. Isso somado aos diálogos fortes e as críticas contundentes tanto ao Governo Norte-Americano quanto à Imprensa formam uma mistura interessante, que fazem com que Zona Verde seja um filme que nos faz refletir a respeito do conflito iraquiano, mas, ao mesmo tempo, seja uma ficção ágil e muito realista, apesar dos efeitos especiais. O encerramento do drama desenvolvido durante toda a história é muito bem feito e foi extremamente bem pensado, para não parecer forçado e, ao mesmo tempo, levar quem assiste a questionar uma série de conceitos históricos.
Damon está atuando bem, mas o destaque mesmo são os personagens iraquianos, especialmente Khalid Abdalla, que faz Freddy, um coadjuvante interessante, cujas falas são sempre impactantes e que representa a voz do Iraque, sempre tão menosprezada durante todo este conflito. Igal Naor também exerce sobre nós certo impacto como o General Al Rawi, quando nos é mostrada uma faceta dele além da de um militar que serviu a um regime ditatorial durante anos, tão comumente encontrada na mídia. Ele se mostra um homem frio, equilibrado, mas que quer, acima de tudo, servir à sua pátria, seja da forma que for.
Com esse filme, Greengrass expôs uma opinião de um fato histórico bem recente de forma bastante corajosa, sendo bastante aplaudido e, ao mesmo tempo, criticado por isso. Mas a verdade que o diretor expôs na tela já havia sido bastante debatida, tanto no cinema quanto no congresso norte-americano. Como resumiu bem Michael Moore em seu twitter, quando do lançamento do filme, "é inacreditável que esse filme tenha sido feito. Tem sido estupidamente vendido pela publicidade como um filme de ação. É o filme mais honesto sobre a Guerra do Iraque que Hollywood já fez". É realmente estranho que a indústria cinematográfica tenha apoiado uma crítica tão dura. Será algum tipo de mea culpa? Se sim, foi feita com competência e estilo.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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