
Sem muito marketing, chamando pouca atenção, estreou no último final de semana o primeiro filme dirigido pelo escritor e roteirista Guillermo Arriaga desde a dissolução de sua profícua parceria com o diretor Alejandro González Iñárritu: Vidas que se cruzam. Os dois realizaram três filmes juntos: Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. Este último ganhou, em 2007, um Oscar, tendo sido indicado para outras seis categorias na mesma premiação, incluindo Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Apesar do sucesso de Babel, a obra foi a causadora da discórdia entre os dois: Arriaga queria ter o crédito de co-autor, o que não foi cedido por Iñárritu. Desde então, os dois seguiram caminhos diferentes. E mesmo com pouca experiência, o escritor decidiu ir além da roteirização no cinema, arte que executava de forma similar ao seu trabalho literário.
Vidas que se cruzam conta a história de quatro mulheres: Maria (Tessa Ia), Sylvia (Charlize Theron), Mariana (Jennifer Lawrence) e Gina (Kim Basinger). O modelo narrativo escolhido por Arriaga para fazer isso é inteligente e respeita o espectador, sendo muito semelhante ao utilizado em Babel e em Crash, com os fatos sendo expostos um atrás do outro, indo se encaixando aos poucos, de modo que o público é que é o encarregado de montar um complexo quebra-cabeças. O diretor não impõe nenhum tipo de ordem ou organização. A formatação é mais simples do que parece, não traz surpresas, mas é eficiente e poética. Considerando que este é apenas o seu terceiro filme, foi uma opção bastante corajosa por parte do cineasta.
Ele demonstra um conhecimento bastante apurado da sétima arte também pela escolha comedida da forma como coloca certos fatos para seu público. Por exemplo, logo na primeira cena do filme temos Charlize Theron nua, fumando em frente a uma janela, e em seu olhar e expressão estão todo o sofrimento que carrega. Não é necessário mais nada a não ser um close em seu rosto para sabermos que há algo de grave com ela. Mais adiante, a opção de mostrar seu ângulo desconfortável na cama nos contam ainda mais sobre a personagem e seu estilo de vida. São dicas, desde o primeiro segundo de projeção. Mas só bem mais adiante descobriremos o porquê.
A cena da pulverização também é bastante impactante, um pedacinho de poesia imagética como só o Cinema permite. O modo como a câmera se posiciona atrás da menina e mostra apenas o essencial aos nossos olhos foi algo extremamente bem planejado e, com certeza, bastante trabalhoso de se fazer. Logo depois, quando ela corre e a câmera corre atrás dela, a impressão é de que quem corre somos nós, tentando impedí-la de chegar em seu destino. Uma sequência marcante e bem feita, para um dos momentos-chave da história e que revelam o quanto Arriaga já carrega em sua bagagem.
Os diálogos são muito bem colocados e abordam questões bem interessantes, nos fazendo refletir em alguns momentos. Charlize e Kim estão atuando muito bem, as duas bastante expressivas e surpreendendo positivamente. A iniciante Jennifer Lawrence também cumpre bem o seu papel e tanto nos causa estranhamento quanto cativa, da forma como deve ser.
Vidas que se cruzam poderia ser mais objetivo, mas tem bons motivos se não o é. Quando se encerra, com outro pedacinho de poesia fílmica, entendemos toda a trajetória da protagonista, o ciclo que se encerra e ficamos ansiosos por saber o que estará por vir. E é exatamente aí que Arriaga nos deixa curiosos, o momento ideal de se parar. Com esse filme, o escritor mostra, modestamente, que tem talento o suficiente para prosseguir sozinho em sua trajetória e que podemos ter expectativas otimistas quanto a seus futuros trabalhos. Que venha Cannes e Biutiful, de Iñárritu, para sabermos se este também seguirá em "carreira solo" de maneira profícua.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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