
Desde sempre Hollywood realiza filmes de terror cujo foco são crianças e adolescentes problemáticos. Ao que parece, a temática tem causado espanto há gerações, haja visto obras como O Exorcista e Carrie, a Estranha, para citar apenas duas. Mais recentemente, temos tido uma "febre" de retomada do tema a todo vapor, haja visto filmes como O Chamado e A Orfã, sendo este último o mais recente. Caso 39, que está nas salas de cinema de todo o país, é mais um filme desse subgênero, lembrando bastante em sua temática outra obra: O Anjo Malvado, protagonizado em 1993 por Macaulay Culkin.
Mas apesar da temática ser a mesma, a obra do cineasta russo Christian Alvart é bem menos violenta e assustadora. Caso 39 conta a história da assistente social Emily Jenkins (Renée Zellweger), que se depara com uma denúncia na qual uma menina, Lillith Sullivan (Jodelle Ferland, uma atriz mirim quase veterana no gênero suspense / terror), sofreria violência por parte dos pais. Ao perceber medo na menina, Emily suspeita que a denúncia procede, apesar de não haver uma prova efetiva de que os pais a tratem mal. O desenrolar da história caminha para a assistente social se envolvendo com o caso mais do que deveria.
E da-lhe zoom in e zoom out o filme todo, com closes dramáticos sobre os personagens, mostrando suas reações de horror em detalhes. Também temos bastante desses zooms nas casas das protagonistas, cujo significado dramático tem uma importância para a trama, especialmente a da família de Lillith e a de Emily. Ainda na parte técnica merecem destaque os efeitos especiais usados no filme, que são sob medida para que a história funcione: o suficiente para impressionar, mas não excessivos, o que faria a obra cair no ridículo (do meio do filme em diante, os efeitos fazem com que o filme escape por pouco, de raspão mesmo, de descambar totalmente pro idiota).
Renée Zellweger e Jodelle Ferland estão atuando bem, a primeira tentando deixar de ser Bridget Jones e a segunda fazendo seu personagem evoluir, mesmo que num ritmo um pouco rápido. Ridículo mesmo é ver que as duas estão apenas fazendo "mais do mesmo", chegando ao ponto da primeira ter uma cena correndo na rua de calcinha, quase igual à de O Diário de Bridget Jones, exceto pela chuva e pelo motivo da correria. Mas e daí? É a Zellweger meio gorda bancando a ridícula de novo. Nesse sentido Jodelle está atuando até melhor que a protagonista, apesar do famigerado clichê do telefone do qual participa. Não tem nada mais clichê que telefone em filme de terror.
Por último, mas o mais importante, temos a trilha sonora, aquilo que sustenta o filme como um todo e que faz Caso 39, mesmo fraco em alguns pontos, causar terror em sua plateia. O filme é todo costurado nela, desde o primeiro momento, quando uma casa assustadora enche a tela. Só sentimos a apreensão que esse close inicial causa por causa da música instrumental que acompanha o zoom in. É o prenúncio de que, daquele momento em diante, a tensão será pontuada pelo trabalho do promissor Michl Britsch, companheiro de Alvart em todas as suas obras até hoje. O filme, assistido sem som, seria impactante, mas não teria sequer 50% do mesmo efeito, merecendo o compositor um olhar de atenção pelo seu bom trabalho. Aliás, todo filme desse gênero que se preze precisa de uma trilha de impacto ou virará apenas mais um motivo de piada, como tantos outras obras que se dizem terror por aí.
Caso 39 dá no público bastante sustos, apesar de que decepcionará um pouco aqueles que são mais fãs do gênero e forem na expectativa de encontrar algo diferente. A história é concatenada, com um enredo bem definido, que te prende e funciona, sendo um bom entretenimento. Mas não é O Anjo Malvado ou Carrie, a Estranha. E está bem aquém.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
Aproveite para nos seguir no Twitter, acompanhar atualizaçoes pelo canal RSS ou enviar-nos email com sugestoes, dicas, críticas. Para anunciar, voce também pode utilizar nosso canal de contato.