
Todos os dias, Hollywood gasta alguns milhões de dólares produzindo filmes ruins, que sequer serão grandes sucessos comerciais. Na indústria cinematográfica, é extremamente corriqueiro que o dinheiro seja gasto aos montes, mesmo o estúdio nunca tendo uma garantia 100% segura de que irá obter o retorno desejado nas bilheterias. Para que uma Warner Bros ou MGM possa se assegurar de forma mais certeira nesse palpite, aposta em todo tipo de coisa: bom diretor, elenco que atrai pessoas pro cinema, temática atrativa e sentimental, enfim, buscam fatores favoráveis. Mas, obviamente, a equação do sucesso não é tão simples assim. E eles tem plena consciência de que o risco de um fiasco faz parte do jogo.
No Brasil, a lógica é parecida, mas a realidade é drasticamente diferente. Nossa produção é infinitamente menor e restrita a poucos realizadores, os recursos são extremamente escassos e há ainda uma dependência enorme das leis governamentais de incentivo. Esses aspectos fazem com que, mais do que nunca, as apostas sejam feitas em produções que conciliem o maior número possível de fatores aglutinadores de público. Com a ressalva de que, em nosso país, enfretamos obstáculos que os norte-americanos não tem: uma audiência resistente ao cinema nacional; um ingresso cujo preço é quase proibitivo para a maior parte da população, uma escassez impressionante de salas de cinema, restritas a shoppings em grande parte dos municípios; e muitas das salas priorizam produções internacionais às nacionais.
Assim sendo, é fácil entender que, até mais do que na América do Norte, o Cinema Brasileiro só aposte suas fichas em produções que conciliem muitos fatores de sucesso. Isso explica a predominância, para não falarmos em monopólio, de produções encabeçadas pela Globofilmes, cujo sucesso e domínio na televisão pública leva a crer que o oferecido por eles é aquilo que o público brasileiro quer ver no cinema. E talvez seja mesmo, levando em consideração que Chico Xavier vai indo bem de bilheteria.
O que não significa que o filme seja bom. Público nunca foi sinônimo de qualidade. Chico Xavier concilia uma série de fatores que leva e continuará levando, nas próximas semanas, as pessoas ao cinema: tem um elenco global, extremamente familiar do público, até demais; tem um diretor global, que dirige produções dessa emissora desde 1967 e que também é bastante conhecido; aborda um tema polêmico, o espiritismo; e tem como protagonista uma das figuras mais queridas e questionadas desse país, um médium que conquistou tanto a admiração quanto o ódio de milhares de pessoas com suas palavras e atos de caridade. Com esses três fatores conciliados, é natural que as pessoas fiquem curiosas por assistir.
Mas persistirá essa bilheteria depois que o público tiver contato com a obra e esse contato repercutir entre os curiosos sobre como é o filme? Só o tempo dirá. Fato é que Chico Xavier tem um público muito certo e que vai, com certeza, sair do cinema satisfeito. Essas pessoas são aquelas que assistem novelas e minisséries globais. Que já estão acostumadas com a narrativa televisiva oferecida pela Rede Globo. Que gostaram de novelas como A Viagem, de minisséries como Sai de Baixo e de filmes como Se Eu Fosse Você.
Esclareço aqui que eu não tenho absolutamente nada contra novelas ou contra quem as assiste. Numa programação pública tão pífia como a que temos, muitas vezes não há mais o que se ver na televisão e, não raras vezes, elas são a melhor opção dentre o que está passando. Então explicarei melhor o que estou querendo dizer para evitar equívocos.
Chico Xavier é uma minissérie de tv de pouco mais de duas horas de duração, rodando numa tela de cinema. Para quem for assistí-lo tendo essa perspectiva em vista, não terá a mínima decepção com o que a obra tem a oferecer. É uma minissérie global nos seus mínimos detalhes: na insistência em se fechar os closes em zoom no protagonista; nas elipses, que sempre introduzem as evoluções da narrativa a partir do chuvisco da televisão; na mixagem e edição de som extremamente amadoras, com os atores mexendo a boca e seus diálogos saindo com atraso; na trilha sonora mal explorada (com o talento de Egberto Gismonti extremamente desperdiçado); e no roteiro maniqueísta e extremamente clichê e previsível, do início ao fim.
Para uma minissérie global, esse conjunto que citei acima funciona muitíssimo bem e agrada o seu público. O roteiro tem que ser simples mesmo: o santo que enfrenta obstáculos e consegue chegar à sua glória, com uma historinha paralela de conversão de um ateu, que mostra a santidade e superioridade do protagonista. O problema está no fato de que Cinema e Televisão tem diferenças extremas de formatação, que vão muitíssimo além do tamanho da tela. Quem vai ao cinema, e estou falando dos frequentadores mais assíduos, não vai pra ver novela. Cada formato tem o seu lugar. E se os filmes, devidamente editados, funcionam na telinha, o contrário não acontece em hipótese alguma.
Clichês infantis, elenco desgastado e história simplista ofendem a inteligência do espectador que vai ao cinema em busca de uma obra cinematográfica bem feita. A pessoa pode até não saber o que é, mas sai sentindo falta de alguma coisa e insatisfeita com o que assistiu. Um filme tem que ser instigante, ter um enredo cativante e, de preferência, surpreendente; tem que acrescentar algo, tem de ter uma proposta. Toda essa mágica está não no conteúdo, muitas vezes tirado de livros e outros tipos de obras artísticas conhecidas, mas sim na forma como ele é apresentado a nós. O segredo está todo em como é contada a história.
E mais clichê ainda é dizer que essa forma de contar está ausente de todas as produções brasileiras, o que não é verdade. O Brasil tem Cinema e tem bom Cinema, mas infelizmente ele ainda não está chegando até as pessoas como deveria, por falta da divulgação adequada, por falta de espaço, de dinheiro, de infinitos fatores em conjunto que contribuem para isso. O bom Cinema também, muitas vezes, não é lucrativo e é renegado a segundo plano.
Por tudo isso exposto, podemos dizer que Chico Xavier não é e não funciona como Cinema. Pode ser uma obra que tem todo o mérito de levar o público até as salas, movido pela natural curiosidade e por uma intensa e bem trabalhada publicidade feita em torno do lançamento. Mas seu demérito está no fato de que essa produção traz um prejuízo irrecuperável para a formação desse público. Feito como foi é apenas mais uma artimanha da Globofilmes, para garantir sua supremacia sobre o gosto do brasileiro, que, por falta de outras opções, acha que está tudo muito bem e fica sem entender porque esse tipo de filme afasta o Brasil de ter chances reais de concorrer a um Oscar.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
Aproveite para nos seguir no Twitter, acompanhar atualizaçoes pelo canal RSS ou enviar-nos email com sugestoes, dicas, críticas. Para anunciar, voce também pode utilizar nosso canal de contato.