
Richard Kelly tem uma carreira curtíssima. A Caixa é o quinto filme que dirigiu e o que mais recebeu atenção da mídia desde Donnie Darko, que fez em 2001. A atenção se deve principalmente ao fato do filme ser protagonizado por Cameron Diaz. E o par romântico dela é James Marsden, mais conhecido como o personagem Ciclope, de X Men. Temos então um casal protagonista essencialmente hollywoodiano, o que gera a expectativa de um "pipocão" por parte do público.
Até aí tudo bem. Nada de errado com isso. "Pipocões" também fazem parte do cinema. O problema é quando eles se tornam a desculpa para se produzir filmes ruins. E A Caixa é exatamente isso. Uma promessa de blockbuster extremamente frustrante, tanto para o público que busca esse tipo de filme quanto para aqueles que vão assistir na expectativa de finalmente ver Cameron Diaz evoluir como atriz.
A história se passa na cidade de Virgínia, no ano de 1976. Norma Lewis (Cameron Diaz) desperta no meio da noite ao som da campanhia. Quando desce para atender, vê um carro indo embora em alta velocidade. Ao olhar para baixo, se depara com um embrulho pardo. Ela e seu marido Arthur (James Marsden) abrem e encontram uma caixa preta, com um botão vermelho em torno de uma cúpula de acrílico, trancada a chave. Também há um bilhete, mencionando a visita de um tal Sr. Steward (Frank Langella), que nenhum dos dois conhece.
O argumento de A Caixa foi retirado do conto Button Button, de Richard Matheson, que foi publicado pela primeira vez na Revista Playboy, em 1970. Para quem não sabe, Matheson é um autor renomado de ficção científica, fantasia e terror e dentre seus romances mais famosos tem Eu Sou a Lenda, que já foi adaptado três vezes para o cinema, sendo o filme protagonizado por Will Smith a última delas. Outros de seus livros viraram filmes como, por exemplo, Amor Além da Vida e Em Algum Lugar do Passado. Também escreveu diversos episódios para a clássica série Além da Imaginação.
A primeira vez que o conto foi para as telas foi justamente nessa série. Ele fez parte de um dos episódios da primeira temporada, veiculada em 1985. Na época, Matheson detestou a forma como a história foi distorcida no seriado, chegando a usar um pseudônimo, para não ter que assinar a autoria do argumento como ele mesmo.
Levando todo esse histórico em consideração, era de se esperar que A Caixa fosse respeitar a ideia original de seu criador ou pelo menos se inspirar no episódio da famosa série. Nem um nem outro. O filme mantém apenas o início e o enredo principal: uma caixa misteriosa que oferece dinheiro por um "preço" bem alto, incalculável. Até aí tudo bem, Hollywood distorce livros e contos em suas produções todos os dias. O problema é quando isso é executado de forma mal feita, incompetente e que desrespeita a inteligência do espectador.
Com zumbis bizarros; closes lentos e frequentes que se aproximam dramaticamente dos focos de atenção das cenas; e trilha sonora previsível e estranha, somente instrumental; o diretor construiu uma história por cima do conto, com o objetivo de colocar medo no público e fazer uma típica ficção científica da década de 70. Falhou terrivelmente. Impossível sentir medo de sequências tão mal construídas, roteiro tão fraco e personagens tão rasos, que não nos envolvem de forma alguma no seu drama. Para piorar, nem o básico foi feito. Os efeitos toscos de computação gráfica são uma das partes mais frustrantes do filme. São ruins de doer. E estamos falando de uma obra que se propõe a ser uma ficção grandiosa. Não, os efeitos não são mal feitos de propósito, antes fossem. Imagino que tenha faltado dinheiro, ficou tudo no salário da Cameron Diaz. Mas o que há de mais ruim no filme ainda nem é isso.
Richard Kelly constrói sua nova história dando uma superestimada importância ao personagem de Langella. O ator, que já fez de Richard Nixon a Perry White, é todo o segredo do enredo do filme e sobre seus ombros fica a responsabilidade, quase que totalmente, de fazer a história funcionar. Ele não consegue nos convencer, com o jeito calado e frio de Sr. Steward, de que seria algo, perdoem o trocadilho, além de nossa imaginação. Sendo um fio condutor falho, ele coloca a obra toda a perder. Não é culpa totalmente dele e sim do roteiro e do diretor, que coloca todos os ovos numa cesta só e deixa Cameron e Marsden perambulando de um lado pro outro da tela, feito baratas tontas, sem saber o que fazer num enredo tão pífio, medíocre e sem a mínima lógica cinematográfica.
Porque o ilógico, quando bem filmado, dá excepcionais produções. Mas A Caixa não possui coesão, não tem coerência cinematográfica, é um anti-filme por excelência que, em certo momento, chega a desistir de si mesmo e descambar totalmente pro ridículo, nos fazendo ficar com vontade de levantar da cadeira e ir embora. O que é mais produtivo, diga-se de passagem. Será que valeu a pena, Richard Matheson, ceder os direitos autorais para esse filme? O senhor deve estar com vergonha e muito arrependido a essa hora.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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