
Depois de um jejum de nove anos, os irmãos Hughes voltam à ativa com o faroeste sci-fi O Livro de Eli. A dupla, que ficou conhecida após seu primeiro filme, Perigo para a Sociedade, ser premiado no Festival de Cannes em 1993, tem uma filmografia curta e marcada por obras que priorizam cenas de violência. Sendo assim, é natural que agradem a um público bem direcionado: fanáticos por sangue jorrando por todo o lado e corpos pelo chão.
Com O Livro de Eli, os gêmeos tentaram também agregar a esse seu público fiel aquelas pessoas que, além de gostar de ver a violência na tela grande, curtem ficção científica. Grande erro. Longe de ser o que promete nos trailers e propagandas, esse filme é, para dizer de uma maneira bem educada, uma grande perda de tempo. Com enredo fraco e atuações lamentáveis e pouco convicentes, o que a obra tem de melhor, se é que há algo a ser destacado nesse sentido, é a parte técnica, bem executada, apesar de clichê.
Em seus primeiros quatro (e irritantemente longos) minutos, o filme mostra Denzel Washington (Eli) como um protagonista sofrido, solitário, que perambula em meio a lugares abandonados em busca da sobrevivência. Para enfatizar tudo pelo qual o personagem já passou, temos muitos ângulos amplos e imagens do céu azul com o sol inclemente sobre sua cabeça, além de um deserto árido e de diversas estradas desertas que ele vai encontrando. Pedaços da sociedade antiga estão por todos os lados. O filme não esclarece totalmente mas, a princípio, houve uma guerra que destruiu tudo. Sim, é mais um daqueles filmes em que poucos seres humanos sobreviveram a uma grande catástrofe que acabou com a humanidade. De novo. A diferença está na abordagem faroeste, com direito a ele entrando num bar e todos olhando para ele; e uma sequência onde há vento, poeira, gente correndo e tiroteio no meio da rua. Só faltou a trilha sonora clássica de western e o chapéu de caubói.
A trilha sonora instrumental é eficiente em nos remeter ao clima de uma ficção científica. Já a música incidental chega a ser bizarra, indo de How Can You Mend a Broken Heart a Ring My Bell e é composta por faixas que ouvimos quando os personagens ouvem. Quanto aos movimentos de câmera temos bastante travelling, slow motions cujo único objetivo é nos emocionar (e não conseguem), cortes e elipses interessantes, e câmeras que sobem, descem e tremem bastante durante a projeção. Como recurso de suspense, temos constantemente a nossa visão cortada por colunas, árvores e prédios que atravessam a frente da câmera durante os travellings. Esse recurso até funcionaria bem em nos causar o efeito esperado, se não acontecesse com tanta frequência durante O Livro de Eli. Aí acaba é irritando o público.
O enredo é uma bobagem sem tamanho, não por sua proposta, bastante comum (Homem tem um objetivo e precisa alcançá-lo, para isso tem de enfrentar bandidos). Mas porque é mal e porcamente executado. Eli é um homem que, sobrevivendo ao "grande flash", decide ir sempre a Oeste até encontrar um local onde possa deixar o tesouro que carrega. No meio do caminho ele encontra Carnegie (Gary Oldman), que governa uma cidade pequena e deseja muito encontrar um livro peculiar. Os dois entrarão em conflito, naturalmente.
Destaque negativo para Washington, um excelente ator completamente desperdiçado com esta porcaria de roteiro (é, Gary Whitta, você começou mal, meu caro) e que não nos convence, de forma alguma, que seguirá o caminho que acaba seguindo. Gary Oldman também faz um vilão neanderthal muito clichê, que grita o tempo todo e puxa as mulheres pelo cabelo. Sua participação no filme poderia ter sido muito melhor. Mas seu personagem é raso com um prato.
O Livro de Eli é um filme para poucos: aqueles que gostam de violência, pura e simples. Ela sequer é usada a serviço da história, na narrativa. O filme é previsível e despreza a inteligência do público. Interessa em sua proposta, mas não convence. Encerra, mas não define. Crítica a religião, mas tem um protagonista que se contradiz bastante. Enfim, não serve nem mesmo para entretenimento, irritando extremamente a aqueles com um mínimo de interesse por uma história coerente.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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