
Caro leitor, você já ouviu falar de John Lee Hancock? Não? Pois nem eu. O diretor possui uma carreira bastante inespressiva, tendo iniciado na década de 90 e estado à frente de apenas cinco filmes até hoje. Sua participação no Cinema mais expressiva talvez seja Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, de 1997, filme de Clint Eastwood do qual foi roteirista. Um Sonho Possível é sua primeira produção de real importância, agraciado com o Oscar de Melhor Atriz no início deste mês.
A obra, também roteirizada por Hancock e baseada em livro homônimo do jornalista Michael Lewis, conta fatos reais da vida do jogador de futebol americano Michael Oher, que atualmente joga no time Baltimore Ravens. Oher vivia, aos 16 anos, uma situação que, infelizmente, ainda é muito comum. Não tinha um lar ou uma família, a mãe era viciada em cocaína, não conseguia parar em escola nenhuma ou em lar adotivo nenhum; possuía sérios problemas de aprendizagem na escola.
Um dia, vai parar numa escola católica para jovens de melhor situação financeira, por intermédio do treinador Burt Cotton, interessado em tê-lo no time. Negro, alto, gordo e pobre, é discriminado pelos colegas e pouco entendido pelos professores. Tinha a forma física ideal para jogar futebol americano. Mas muitos obstáculos pelo caminho.
O personagem dele já seria um clichê por si só, mas é complementado pela ainda mais clichê Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock), a típica "mulher coragem" que decide acolhê-lo num ainda mais clichê dia frio. Tem que se dar o braço a torcer: Bullock executa bem este clichê e o papel é, sem sombra de dúvidas, o melhor de sua carreira. Ainda assim, não é nenhuma Gabourey Sidibe, Meryl Streep ou Helen Mirren. Mas acredito firmemente que tenha ganho o Oscar por esse papel como um incentivo a continuar investindo numa carreira um pouco mais séria. Quem é que sabe o que se passa na cabeça da Academia? Mas, enfim.
Do ponto de vista técnico, é uma obra que não tem nada de mais. A música instrumental emotiva de Carter Burwell, que, não me entendam mal, é extremamente talentoso, é muito irritante. Sempre há pianos e violinos nos momentos tristes. E uma previsível batida mais animada em momentos mais felizes. Não foge do "padrão Disney" (apesar de ser da Alcon, em parceria com a Warner Bros) em momento algum e é aquele tipo de música feita para passar bem despercebida por quem assiste ao filme. Engraçado que Burwell fez excelentes trilhas instrumentais para Um Homem Sério e Onde os Fracos Não Tem Vez. Mas, por outro lado, também trabalhou em Crepúsculo. Provavelmente ele dá a cada filme o que julga ser necessário para aquele enredo, em particular, funcionar.
Quanto ao jeito de filmar, Hancock não vai além de ângulos abertos, closes-up ou, num certo momento, uma câmera um pouco tremida que ensaia descer junto com Sandra Bullock. O que faz a obra funcionar é, sem sombra de dúvida, a fórmula "história emocionante e real" + "personagens simpáticos e cativantes". Destaque para, além da protagonista, Tim McGraw, como o marido compreensivo e sempre amigável; Jae Head como o garotinho esperto e pró-ativo; e Lily Collins, como uma adolescente estranhamente bacana. Como vocês podem ver, essa é uma típica família perfeita, bem ao estilo American Way Of Life. Nem a adolescente dá problemas.
Não bastasse esse festival de clichês pipocando para todos os lados, ainda temos Kathy Bates como a professora Miss Sue, que apoia o garoto em seus estudos. Para quem não sabe, essa atriz sempre faz o mesmo papel, em qualquer produção, sendo sempre a senhora compreensiva que conversa e ajuda os protagonistas a alcançarem seus objetivos. Fez isso em praticamente todos os quase 100 filmes dos quais participou, dentre eles Titanic, O Mistério da Libélula e P.S. Eu Te Amo. Haja paciência.
Ainda assim, apesar de não ter nada de mais, Um Sonho Possível é um filme que agrada praticamente a todo mundo. Seja por causa de seu enredo, previsível mas cativante, seja a interpretação dos atores, que dão o tom certo de 'felicidade' a esse 'conto de fadas'. É um filme para crianças e adultos assistirem juntos. Daqui a alguns anos é certo que esteja na Sessão da Tarde. Entretenimento familiar e aprazível.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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