
Difícil falar sobre Ilha do Medo, novo filme do mestre Martin Scorsese que renova sua parceria com Leonardo Di Caprio, o antes mocinho de Titanic que agora cresceu e virou ator de verdade.
Isso porque Ilha do Medo é um daqueles filmes que é bom o próprio espectador descobrir sozinho ou não terá o efeito desejado pelo cineasta. Ainda assim, me arriscarei a falar aqui alguma coisa do enredo, pouco menos que o trailer e a sinopse mencionam. Também falarei dos aspectos técnicos do filme, que são maravilhosos e impossíveis de não serem mencionados. Fora isso, não entrego mais. Se há um filme cujo risco de spoiler é grande, esse é Ilha do Medo.
Logo no início da obra, conhecemos o policial federal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e seu novo parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo). O ano é 1954. Os dois se encaminham rumo a Ashecliffe, um sanatório que fica isolado numa ilha e cujos pacientes são todos criminosos da mais alta periculosidade. Uma das pacientes, Rachel Solando (Emily Mortimer), desaparece e os dois são convocados a ir até o lugar investigar o que aconteceu.
Quando chegam lá, Scorsese dá a eles um dos melhores momentos do filme. Eles são transportados de caminhonete e durante o trajeto são filmados de cima, de lado e dentro do carro. A medida que vão chegando, a trilha sonora se faz cada vez mais presente se torna mais e mais alta, ampliando no público o medo e a angústia. É a Sinfonia nº 3: Passacaglia - Allegro Moderato, escrita por Krzysztof Penderecki, compositor polonês que bem poderia ter trabalhado com Bernard Hermann e Hitchcock na criação do inesquecível tema de Psicose. Presente em todos os momentos de tensão, a música marca o personagem de DiCaprio e sua história. E já nos apresenta, de cara, a intenção de Scorsese de se inspirar no trabalho do mestre do suspense durante todo o filme.
E a obra é recheada de momentos memoráveis e ao estilo de Hitch como esse. Todas as sequências de sonho do protagonista são sensacionais. Nelas temos um excelente exemplo de uso dos efeitos especiais a serviço do enredo. E percebemos porque inicialmente David Lynch estava interessado em dirigir esse filme.
Outra cena inesquecível é quando Daniels interroga uma das pacientes do sanatório e a câmera começa a uma certa distância dela. Ao final da cena, a câmera já está quase colada no rosto dela, bem fechada. O close foi se fechando a medida que as perguntas ficaram mais e mais pesadas. E nem se percebe. A imagem reflete a angústia pela qual ela está passando.
Também há enquadramentos de câmera dignos do duas vezes vencedor do Oscar Robert Richardson que, mais do que um diretor de fotografia, é um artista. A filmagem de DiCaprio e Ruffalo através de grades, algo frequente em toda a obra, nos provoca a sensação de aprisionamento. Também temos a subida em uma escada circular; um plogée macabro de quatro personagens; uma terrível tempestade; uma mulher cujo sorriso é aterrorizante; entre tantos outros exemplos.
Destaque para as atuações de Di Caprio, Rufallo e Ben Kingsley como o enigmático Doutor Cawley. O primeiro faz um trabalho incrível, como um protagonista cuja voz e trejeitos nos remetem imediatamente aos clássicos detetives noir das décadas de 50 e 60. O segundo consegue, com seu jeito ponderado, conquistar a confiança do público. Do terceiro nunca se sabe o que esperar.
Não podem deixar de ser parabenizados o maravilhoso trabalho de montagem feito pela vencedora de três Oscar Thelma Schoonmaker; o roteiro, feito por Laeta Kalogridis e Dennis Lehane (este último autor do livro que deu origem ao filme e que também escreveu Sobre Meninos e Lobos); e a trilha sonora, que abrange desde Mahler até Brian Eno e é fundamental para que o filme dê certo.
A iluminação desse filme também é primorosa e é quase um personagem a parte. Quando a dupla de detetives entra numa sala, temos a meia luz, para aumentar nossa expectativa. Quando chove e há relâmpagos, que tornam o rosto de Di Caprio quase invisível, ficamos apreensivos. Se a luz pisca ou acaba e o detetive é obrigado a acender os fósforos, ficamos aterrorizados.
Ilha do Medo é, acima de tudo, sutileza. O terror de Martin Scorsese é refinado: não são monstros assustadores ou vampiros que nos fazem tremer nas cadeiras mas sim luzes, gritos, chuva, sustos, uma porta que se aproxima, corredores longos e vazios, a fumaça de um cigarro, entre outros. Bons diálogos, ótimas atuações, trabalho técnico afinado em conjunto e um bom diretor. Não há a mínima chance de um filme assim construído não dar certo.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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