
Coco Antes de Chanel é, sem sombra de dúvidas, o trabalho que deu a maior projeção internacional à carreira de Anne Fontaine. Antes disso, fez dez filmes, todos praticamente em francês, sendo o mais recente A Garota de Mônaco, pouco expressivo. Com essa obra biográfica, a diretora teve a oportunidade de desvendar os segredos de uma das figuras mais conturbadas da moda internacional, Gabrielle Chanel, cuja trajetória de vida ainda está bastante presente na nossa sociedade contemporânea. A Chanel é uma das grifes de maior expressividade (e lucro) do mundo.
Talvez por causa disso, da grande responsabilidade de falar da criadora de uma marca que ainda é referência, Fontaine não tenha podido aproveitar a oportunidade. Chanel é uma mulher muito mais complexa do que a encarnada por Audrey Tautou e tem partes de sua biografia que, se fossem conhecidas a fundo pelo público, não agradariam nada a Karl Lagerfield, o "herdeiro" do império Chanel. Não são muitas as mulheres que ficariam contentes em saber que usam modelos cujo design era de uma clara simpatizante do nazismo. Há mesmo aqueles mais conspiratórios que enxergam em sua logomarca referências à suástica. E, obviamente, a diretora constrói um filme que passa longe de tudo isto. Do contrário, jamais teria a colaboração da maison na confecção de muitas das peças usadas por Tautou no filme. E a única indicação ao Oscar, de Melhor Figurino, jamais teria acontecido.
Os inúmeros amantes da estilista também não são sequer mencionados, sendo que o filme mostra apenas os dois mais "famosos": Étienne Balsan (Benoît Poelvoorde) e Arthur 'Boy' Capel (Alessandro Nivola). A impressão que se tem, a partir do que é mostrado, é que ela amou este último para sempre. Mas fica difícil saber se isso, de fato, ocorreu, quando sua vida "real" demonstra o contrário.
Mas vamos ao enredo do filme. Gabrielle é uma garota pobre, abandonada pelo pai, junto com a irmã, num orfanato. No Moulins elas cantam juntas num cabaré à noite enquanto de dia costuram para sobreviver. Nesse cabaré conhece Balsan, pelo qual se interessa não do ponto de vista romântico, mas sim do ponto de vista prático: ele é rico e ela quer sair da pobreza. Enquanto isso, a irmã Adrienne (Marie Gillain) é iludida por um barão e passa a viver na expectativa de se casar com ele.
A obra é bastante honesta ao mostrar que o maior interesse de Chanel sempre foi pela moda e por se tornar rica. Ela não sabia conciliar os dois desejos, pois estava vivendo numa França em que as mulheres não trabalhavam e só usavam plumas, paetês e roupas com muitos babados e rendas. Então, quando começa a fazer as próprias roupas e chapéus e expor sua opinião ao mundo de que "menos é mais" e, ainda por cima, decide fazer sucesso com isso, torna-se praticamente uma aberração. E se torna um ícone da revolução feminina que aconteceria ao longo do século XX. Uma pena que a parte interessante do filme pare por aí.
Mas não sejamos injustos com Tautou. Merece destaque sua atuação. Ela consegue dar a seriedade certa ao personagem, algo admirável para a antes protagonista de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Seu semblante infeliz, fumando complusivamente e costurando desenfreadamente são a própria Chanel. Sabemos, inclusive, quando está sorrindo forçada, quando está se remoendo de ódio ou quando está contrariada. Ela dá vida à geniosa estilista, mundialmente conhecida por ter o gênio dificílimo e brigar com inúmeras pessoas do mundo da moda. Arrisco a dizer que se fosse americana seria indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel.
Apesar de fazerem tudo o que podem, Tautou e Fontaine não conseguem salvar o filme e ficamos na expectativa de algo a mais quando ele acaba. Sejamos justos, toda aquela clássica trajetória da heroína é mostrada. Porém, de maneira pouco criativa ou convidativa. A trilha sonora ou a parte técnica do filme não fazem muito mais além do básico. E, se menos é mais no mundo da moda, no cinema isso não se aplica. Só uma boa atuação ou modelos de época bem constituídos não fazem uma biografia. Muito menos a de um personagem tão cheio das mais variadas nuances quanto Chanel foi.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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