
Peter Jackson ficou conhecido mundialmente por sua ousadia em dar vida aos seres mágicos de Tolkien. Seu trabalho em O Senhos dos Anéis, a trilogia, o marcou. Mas antes e depois disso ele mostrou que tinha e ainda tem muito a oferecer para o mundo da sétima arte.
Quem imaginaria que, com um filme trash, e aos 22 anos, ele ganharia tantos prêmios no Festival de Cannes? Bad Taste se tornou um clássico do gênero de filmes de horror, por ter um humor sofisticado, de um lado, e efeitos especiais amadores, de outro. Em seus trabalhos seguintes, particularmente Braindead e Heavenly Creatures, tudo indicava que seguiria um caminho brilhante e sombrio dentro do Cinema. Mas ele surpreendeu o mundo com a história do anel mais desejado de todos e mostrou ser um cineasta versátil.
Tendo isso em vista, Um Olhar do Paraíso não deixa de ser uma espécie de "volta às raízes". A temática da morte, que parece deixar o diretor tão à vontade, novamente é tema de sua obra. Inspirado no livro Uma vida interrompida: Memórias de um Anjo Assassinado, best-seller de Alice Sebold, o filme descreve a vida e a morte de Susie Salmon (Saoirse Ronan, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Desejo e Reparação), de uma maneira comovente e emocionante. E usando o que Jackson sabe fazer melhor: efeitos especiais deslubrantes e, o mais importante de tudo, comedidos.
O comedimento está no fato de que eles servem à história e não o contrário. Claro que eles são deslumbrantes, de deixar qualquer um impressionado. Mas não estão na tela à toa, apenas para nos maravilhar. Cada um deles possui uma mensagem, em seu contexto. E para os observadores mais atentos, é uma delícia decifrá-los. Eles são ícones da vida da protagonista, são todos objetos que fizeram parte da breve adolescência e da tragédia de Susie. E compõem interessante painel visual para nós. Para ela, são uma tortura. Alguns dos símbolos mais utilizados: um coreto, um farol aceso, uma árvore e diversas figuras de animais. Esses ícones conversam conosco durante toda a projeção e nos envolvem de uma tal forma que é impossível não fazer todas as conexões que a história nos oferece.
A protagonista é uma garota de apenas 14 anos. Desde o início do filme, ela informa ao espectador que foi assassinada. O que não impede que sintamos tensão, tristeza e dor quando isso, de fato, acontece. Numa sequência mais que memorável, a cena da morte é feita recheada de contrapontos interessantes. Quando ela se encontra com o homem que vai matá-la, imediatamente Jackson mostra sua família, com o pai dela chegando em casa e perguntando à irmã Lindsay (Rose McIver) onde Susie está. A partir daí, o jantar da família é todo intercalado com cenas da garota conversando com seu assassino e percebendo que não haveria escapatória. Também é de cortar o coração a sequencia seguinte, que mostra o pai e mãe tomando providências para encontrá-la.
O ano: 1973. E apesar de todo o cuidado em contar sua triste história, Jackson não deixa nenhum detalhe passar despercebido e faz meticulosa reconstituição de época através de diversos elementos: roupas, penteados, músicas, costumes, e até mesmo o jeito de se expressar de alguns personagens. Nesse sentido, a avó da garota, Lynn (Susan Sarandon) é bastante emblemática, refletindo bem como passaram a se comportar as mulheres da década de 70 em diante, com atitudes hippies e que mostravam pouca desenvoltura nos trabalhos domésticos. Ela fuma, bebe e limpa muito mal a casa, fugindo bastante do modelo "ideal" de uma avó, mas, ao mesmo tempo, cumprindo bem o seu papel.
Outro destaque que merece ser mencionado é como a câmera do diretor neozelandês se movimenta rápido durante todo o filme. Muitos travellings e closes nos deixam sempre bem perto de toda a ação. É quase como se voássemos junto com a protagonista, reforçando em nós a ideia etérea e mágica do que poderia ser um Céu ou um Paraíso. Detalhe interessante é que, mesmo naquelas partes que se dão fora desse Céu, há muito movimento, o que mostra a forte intenção de Jackson de fazer uma obra ágil como um pássaro. Ele, naturalmente, às vezes pousa e nos deixa admirar, em slow motion, tanto a beleza quanto a crueldade do ser humano.
O trabalho de iluminação também é excepcional em criar um clima fantasmagórico e incrivelmente realista para o contexto em que é usado. Somos praticamente convencidos de que a vida após a morte é cheia de brilho intenso e sombra, numa atmosfera cheia de mistério. A luz é usada para nos fazer sentir diversas sensações, sejam medo, raiva ou tristeza. Sem essa iluminação tão cuidadosa, pelo menos 50% do efeito que o filme causa em nós estaria inevitavelmente perdido. Nesse sentido, merece destaque as cenas internas, dentro das casas, quando Susie entra e enxerga tudo de forma diferente da que acontece realmente.
Também é muito marcante, não só para se observar iluminação, mas para ver como Jackson sabe perfeitamente coordenar sua equipe, o momento em que a protagonista passa por uma importante porta e vê todo o passado de seu assassino, num trabalho que concilia montagem, maquiagem, efeitos especiais e interpretação, que torna essa, se não a principal, uma das melhores sequências de todo o filme.
Além de Sarandon e da atriz protagonista, merecem destaque Rachel Weisz, Mark Wahlberg e Stanley Tucci, este último numa atuação excepcional, única em sua carreira, muito marcada por certos tipos de personagens. Ele mostra toda a sua desenvoltura como ator e surpreende um público já acostumado a vê-lo no cinema e na televisão. Merecia ganhar o Oscar de Melhor Ator Coajuvante a que foi indicado por esse filme em março.
Por fim, vale a pena comentar a breve e pequena aparição do próprio diretor no seu filme, bem ao estilo de Hitchcock, quando Wahlberg sai de uma loja de revelação de filmes e rapidamente é focalizado pela câmera um homem na loja usando, ao que parece, uma pequena câmera Super 8. Uma breve homenagem de Jackson ao Cinema e às suas origens, visto que ele próprio já atuou em muitas de suas produções e começou bem cedo a se interessar pela sétima arte, aos oito anos, quando ganhou justamente uma câmera similar a esta.
Sir Peter Jackson conseguiu fazer um filme delicado que tratasse de um dos temas mais sérios e polêmicos da existência humana: a vida após a morte. E teve êxito em fazer isso sem ser de uma forma brega ou forçada, algo muito difícil de se conseguir no Cinema. Um Olhar do Paraíso é mais uma de suas obras primas, que constrói um universo envolvente e emocionante para o público, tão ávido de histórias interessantes e que sejam bem adaptadas à grande tela.
Vocês devem ter notado que não falei muito a respeito do enredo aqui, procurando focar em aspectos técnicos. Tomei essa decisão tendo em vista evitar spoilers. Quanto menos eu falar da história, melhor para vocês que lêem. Se deixem ser surpreendidos. Evitem o trailer. Evitem sinopses. Deixem que a própria Susie lhes conte sua história.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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