
Michael Haneke é um diretor de cinema cuja carreira eu, devo confessar, não acompanho. Um de seus trabalhos mais polêmicos, Funny Games, (filmado em 1997 e refilmado em 2008), não assisti. Na verdade, não tive coragem de ver, já que a fama do filme chegou até mim antes que isso acontecesse. Mas respirei fundo e decidi que A Fita Branca eu iria ver. Não importava a fama obscura do diretor e que todos os críticos que eu já tenha lido tenham ressaltado o quanto ele é sádico. Fui em frente. E não me arrependi de forma alguma, preciso confessar.
Antes de mais nada, confirmo. Sim, o homem é um sádico. Sabe exatamente o que está fazendo. Tem um conhecimento sobre cinema como poucos. E sabe usar muito bem o que tem em mãos para deixar o seu espectador nervoso, triste, assustado e frustrado. Mas muito frustrado mesmo. E é exatamente esses sentimentos que ele quer de nós. Além, é claro, de nossa raiva, pura e simples.
Vale avisar que A Fita Branca é um filme para um público muito segmentado. Não vá esperando muitas das coisas comuns às produções de hoje. Não há efeitos especiais mirabolantes, cores, música ou cenas de ação espetaculares. Há apenas o mínimo: um roteiro espetacular somado a atuações bem demarcadas e uma narrativa ágil, que demanda muita atenção. E o famigerado jogo de "gato e rato" com o público, que é de deixar certas pessoas com ódio quando sobem os créditos finais.
Mas vamos à história. Já no início, o primeiro estranhamento. Não há audio. Não há som algum. Em seguida, a narração de um acidente numa pequena vila alemã. O médico que atende aos aldeões (Rainer Bock) é vítima de um fino arame, colocado na porteira de sua casa. Quando ele passa à cavalo, galopando em considerável velocidade, não vê o arame e, juntamente com o cavalo, é arremessado vários metros. Vai parar no Hospital da cidade, em estado bastante grave. Ninguém consegue saber quem foi a pessoa que colocou o misterioso arame no local.
A partir desse incidente, aparentemente simples, o narrador vai desenvolvendo a história rumo a outros acontecimentos que passam a tirar o sossego do pequeno vilarejo. Incidentes de todo o tipo, desde uma plantação destruída até atentados contra crianças. Mas o mais interessante é como Haneke trabalha tecnicamente a forma de se contar essa história. Tão interessante que lhe rendeu, além da indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a indicação à categoria técnica de Melhor Montagem.
Comecemos pela ausência de trilha sonora. Não há músicas no filme. O silêncio inicial, incômodo, prossegue até que o som ambiente quebre a expectativa dos primeiros minutos. E percebemos que, quando o coral canta na igreja, há música. Quando há dança, temos as melodias que embalam os casais. Mas, fora esses momentos, não há nenhum tipo de trilha, incidental ou instrumental. Isso faz com que, em certas cenas, o mínimo barulho tome uma dimensão impressionante a nossos ouvidos. O objetivo disso é, claramente, nos deixar mais atentos e tensos a qualquer tipo de som.
Isso somado à precária iluminação e à ausência de determinadas imagens faz com que haja uma constante antecipação do pior pelo espectador. No ano em que se passa a história, de 1913 para 1914, a única iluminação que se tem dentro das casas é a de velas e lamparinas. E é assim que o diretor ilumina as cenas: apenas com essas fontes precárias de luz. Os atores sempre ficam bem próximos das luzes, para que possamos vê-los. Seus rostos e expressões faciais ficam bem distintos. Mas boa parte das ações se dá no escuro quase total. E quem não tem medo do escuro? O diretor nos convida a temer pelos personagens.
E mesmo quando há luz, Haneke nos esconde propositalmente certas coisas. Não vemos alguns rostos que gostaríamos. Não há a imagem de quem chora, apenas ouvimos gemidos e gritos de dor. Não é mostrado o quanto um personagem está machucado. Apenas imaginamos. Sem sangue e sem cenas chocantes. Se mostra apenas o necessário. O resto fica por conta da nossa imaginação. Nada mais assustador que isso.
Interessante observar também que as cenas extrernas são, predominantemente, compostas por ângulos bem abertos. Nessas, conseguimos ver tudo. Isso nos passa segurança, não há a tensão em torno do inesperado. O contraste com as locações internas, dentro das casas, é gritante. O medo está dentro dos lares e não fora deles. Essa mensagem, que faz parte do enredo, também é transmitida tecnicamente.
Por fim, quanto ao estilo de filmar, merece destaque o fato de que o diretor austríaco mantém suas câmeras estáticas, sendo que as ações acontecem em torno dela. Os personagens é que vão até a câmera e não o contrário. Ela não se move, a não ser quando acontecem planos sequências. E podemos perceber pelo menos dois, bem breves. Curtos, mas em momentos marcantes da trama.
Também há movimento de câmera através do corte. Muitas vezes, esse corte é tão rápido e se utiliza de elementos tão similares, que quase nos confundimos. Num momento, uma garota de camisola branca e cabelos grandes e molhados está numa cena. No instante seguinte, uma garota de camisola branca e cabelos longos e molhados entra num escritório. São duas pessoas diferentes. Mas demoramos alguns segundos a perceber isso.
Haneke constantemente brinca conosco. Esse é seu grande mérito. Ele joga com nossos nervos, nossas desconfianças. Nos dá informações para acreditarmos numa coisa e, no momento seguinte, estamos percebendo outra. Somos constantemente enganados. E ao final, ficamos intrigados. Não há nada mais impactante no cinema do que um bom quebra-cabeça.
Podem atribuir diversos significados ao enredo de A Fita Branca. Dizer que trata de Educação e de como ela interfere no comportamento humano. Acredito que isso até é um dos motes do filme. Mas o principal é, pura e simplesmente, nos manipular, como grandes marionetes que somos.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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