
Ana e Caio são personagens de contornos bem definidos, e ao mesmo tempo síntese de reflexões globais. Irmãos, representam os duos homem-mulher, fala-silêncio, mãe-filho, para não falar de inúmeras outras possibilidades.
Essa Chuva Que Não Passa, espetáculo em cartaz até o começo de março no Teatro Sesi Holcim (dentro da Campanha de Popularização do Teatro), é tudo aquilo que o público pode esperar de uma obra cênica minuciosa e baseada em estudos e possibilidades técnicas.
-Para quando tá marcada a sua passagem?
-Três dias
-Quando cê volta?
-Sem previsão
A começar pela temática, Eduardo Vaccari (diretor) se apoia no embrião familiar para tecer um texto rico em interpretações. Ana, uma jovem garota emocionalmente dependente de seu irmão Caio, contrapõe a reclusão e economia de diálogos do mesmo, com expressões e verborragia quase materna. Presos a um espaço, vivem o questionamento dúbio de se libertarem física e memorialmente de seus laços com os pais.
O tempo todo Ana reconfigura o espaço da casa. Pequena e bem delimitada por simetrias, enjaula os irmãos até que Caio decide por fim ao jogo, desfazendo espaços e memórias.
Um dos principais pontos de Essa Chuva Que Não Passa refere-se à cenografia. O espaço, preenchido por fita crepe e dotado de memoriabilias, é forte elemento de narrativa, e força os atores a manipulação constante, assim como iluminação, que complementa e pontua o texto teatral. Eduardo Vaccari enfatiza isso: “Chegamos a uma linguagem intimista onde os atores comandam toda interferência na cena, potencializando desta forma a aproximação com o público”.
Um projetor se torna uma cápsula de memória, exibindo o íntimo dos irmãos. Cantigas, a refeição quase publicitária, um instrumento musical, e mesmo epístolas disfarçadas de bilhetes são uma estética de cores pungentes e linguagens vivas.
Valendo-se ainda de recursos multimidiáticos, a narrativa torna-se revigorante. São utilizados objetos eletrônicos de fácil manipulação, para causar identificação com o público. "Todos temos alguns destes em casa”, afirma o ator Dionis Tavares, que interpreta Caio na trama.
Deitada sobre uma miríade de fotografias, Ana embarca no jogo de Caio e imagina-se se libertando de seu lugar-comum. Por fim, sintetiza o desconforto e medo que qualquer um sente ao arriscar um recomeço incerto e desconhecido.
Vale ressaltar que Essa Chuva Que Não Passa ganha ainda mais em sua construção quando propõe ao público uma leitura de si mesmo. Com um texto rico de identificações, não é difícil reconhecer nos dois personagens traços e comportamentos pessoais. Thaís Inácio, a Ana, reforça: “Tenho uma relação com a memória que é muito forte em Ana, e fui trabalhando isto durante a construção do espetáculo”.
Confira vídeo do espetáculo:
Essa Chuva Que Não Passa
Teatro SESI Holcim, até 03 março, de segunda a quarta, às 19h (exceto 15 a 17fev)

Em Belo Horizonte, curte bares discretos, livrarias e feriados prolongados e vazios. É Jornalista, com pós em Jornalismo e Cultura, amante de literatura, música e tecnologia.
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Apresentações gratuitas do espetáculo acontecem nesta terça e quarta-feira, no Teatro Alterosa.

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