
Antes de assistir A Vida Íntima de Pippa Lee eu sequer sabia que Daniel Day-Lewis era casado. Quanto mais com a diretora desse filme, Rebecca Miller, que, além de dirigir, escreveu o romance que deu origem ao filme. E além de romancista, cineasta e esposa de um astro de Hollywood, Rebecca ainda agrega à sua biografia um dos dados mais extraordinários: é filha do dramaturgo Arthur Miller, que escreveu grandes sucessos da Broadway como As Bruxas de Salém e A Morte de um Caixeiro Viajante. Miller foi casado com ninguém mais ninguém menos que Marilyn Monroe. Mas se divorciaram e Rebecca é filha dele com a fotógrafa Inge Morath.
E devo dizer que, de todos os dados referentes a esse A Vida íntima de Pippa Lee, a biografia da diretora é o mais fascinante. A obra não tem nada de mais, é um filme com bom elenco, história simples (com poucos furos) e roteiro razoável. O elenco, recheado de estrelas, desempenha bem seu papel, dando vida a personagens levemente interessantes, cotidianos, um pouco clichês. Mas funciona bem como um entretenimento descomprometido, de sábado à tarde.
Pippa Lee (Robin Wright Penn) é mais uma dessas esposas perfeitas padrão norte-americano que será desmascarada aos nossos olhos. Loira, bonita e jovem, ela é casada com Herb (Alan Arkin), bem mais velho que ela e dono de uma editora, bem-sucedido, que lhe dá tudo o que precisa. Depois dele ter sofrido três ataques cardíacos, eles decidem ir morar num conjunto residencial longe da agitação da cidade, para que ele possa aproveitar a aposentadoria. O casal tem dois filhos já adultos: Ben (Ryan McDonald) e Grace (Zoe Kazan), esta última fotojornalista de guerra e que não gosta da perfeição excessiva da mãe.
Pois bem, como toda pessoa, Pippa também esconde sua sujeira debaixo do tapete. E desde o princípio isso fica bem claro, o que cria certa expectativa em torno do que iremos encontrar. Infelizmente, esse sentimento acaba não sendo satisfeito, pois o que descobrimos durante o filme é bem menos do que esperávamos. Na verdade, a história de vida dela é um clichê corriqueiro, que na vida real encontramos aos montes por aí. No Brasil tem até um caso recente, muito famoso, praticamente igual ao que o filme conta, salvo as devidas proporções e detalhes característicos de cada um. E que em breve também deve virar filme.
Então, o que tem de diferente nessa história? Absolutamente nada. Mas merecem destaque algumas atuações que fazem a trama ficar um pouco mais interessante. A primeira delas é a de Mônica Bellucci. Seu papel é pequeno, ela tem apenas uma cena de maior importância. E ela faz com que essa participação seja uma das melhores do filme. Porque? O sentimento que consegue dar a sua personagem. Com apenas um olhar e a realização de um gesto, ela já justifica sua existência na trama.
Keanu Reeves também desempenha bem o papel de Chris, o sedutor-garoto-problema-em-crise. Sem camisa logo na sua primeira aparição, tinha tudo para ser uma espécie de Marcos Pasquim, apenas desfilando, sem nenhuma densidade dramática. Mas ele até consegue nos convencer de que a vida foi dura com ele e de que se tornou um maluco bonitinho não por própria culpa. Não é nada que poderia lhe render sequer uma indicação pro Globo de Ouro. Mas dá pro gasto. O próprio roteiro não parece exigir dele que se esforce mais do que isso. Então seu desempenho é bastante compatível com o dos demais.
O mesmo acontece com Giuliane Moore e Maria Bello, sendo que esta última se esforça bastante para dar vida à mãe de Pippa. Mas justiça seja feita a Wynona Ryder. Apesar de estar interpretando a si mesma, faz um bom trabalho como Sandra, uma mulher em crise no seu casamento que facilmente tem colapsos nervosos e desata a chorar ridiculamente por qualquer motivo. Seu personagem é tragicômico, quase ridículo e há momentos em que não sabemos se sentimos pena, se achamos graça ou se ela nos deixa embarassados. Porém, sua principal cena no filme é, talvez, um dos poucos momentos de emoção que a obra nos proporciona.
A Vida Íntima de Pippa Lee talvez não funcione como cinema por um motivo que não deveria ser um problema, mas é: quem o dirige é a mesma pessoa que escreveu o livro. Ou seja, falta um olhar cinematográfico sobre a história. Nos últimos minutos, a diretora até ensaia algo nesse sentido. Quem sabe no próximo, hein Rebecca? Mas não há motivo, não há conflito, não há emoção nessa vida íntima aí. Afinal, é inconcebível que um filme seja mais sem graça do que seria a vida real. Acaba faltando uma pimenta nesse angu, falando a grosso modo.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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