
Indiscutivelmente, Pedro Almodóvar gosta de contar histórias de amor em seus filmes. São amores de diversos tipos. Temos o amor de uma família em Volver; o amor imenso de uma mãe em Tudo Sobre Minha Mãe; e em Fale com Ela uma paixão, no mínimo, diferente.
Na sua nova produção, Abraços Partidos, Almodóvar novamente vem nos presentear com um romance, num de seus enredos mais simples, porém extremamente rico, tanto quanto os de suas outras obras.
A riqueza está nos sentimentos dos personagens. É um filme de paixões arrebatadoras, intensas, perigosas. O diretor respeita a inteligência do espectador e nos informa isso de uma maneira bem simples: usando as cores. O vermelho intenso predomina durante boa parte das cenas. Especialmente aquelas em que a personagem de Penélope Cruz está em cena. Ela é a labareda que dá energia à narrativa.
E esta gira toda em torno da personagem dela, Magdalena; Harry Caine (Lluís Homar) e Ernesto Martel (José Luis Gómez). Interessante observar que, por meio de legendas que indicam a passagem do tempo, elipses, fades e alguns sofisticados raccords o diretor conseguiu contornar as complexas passagens de tempo dentro do enredo, que acontecem com certa frequência na história. Mas novamente ele respeita a inteligência de quem assiste e depois de certo ponto deixa tudo subtendido, como quem diz: "ok, vocês já sacaram".
O enredo vai nos revelando, devagar, quem são cada um dos personagens, qual sua importância dentro da narrativa e sua índole. Para isso o diretor também usa as cores, mostrando a evolução de cada um deles na narrativa de acordo com o que vestem. No tempo presente, por exemplo, vemos Harry Caine com roupas de tom sóbrio, especialmente azul escuro e marrom. Em outro ponto do filme, ele usa tons fortes, especialmente o vermelho, que denuncia seu coração em chamas. Em sua primeira aparição no filme, Magdalena é uma séria secretária, de uniforme padrão e cinza. Não demora a também adotar o vermelho, cor que será sua durante praticamente todo o filme. E há um momento, de extrema tensão, em que usa preto, para demonstrar sua dor, seu nojo, sua tristeza.
Há momentos magníficos durante a obra, extremamente poéticos. Em duas cenas de sexo, uma após a outra, o diretor mostra para o espectador, sem precisar de diálogos, a paixão seguida pela repulsa. E na imagem que resume bem o filme temos Caine colocando suas mãos sobre o televisor, num enquadramento carregado de significado e de sentimento. Vemos a paixão e a tristeza do personagem pulsando da tela em direção a quem assiste. E tudo isso com uma sutileza fantástica.
Outro ponto a se observar é que os personagens todos, até mesmo os coadjuvantes pouco importantes para a trama, carregam muita expressividade no olhar. A mãe de Magdalena, o barman que atende a personagem Judit Garcia e até mesmo a câmera (que desce para "olhar" o andar de Magdalena), todos mostram suas opiniões e pensamentos por meio do olhar e de expressões faciais. Diálogos são, em muitos momentos, dispensáveis. Para entender esta história, o que você vê é o que importa.
Destaque para a fotografia, bastante natural, com uso de luz muito equilibrado, sem excessos nem falta, valorizando o rosto dos personagens e suas expressões. Quanto à trilha de som, há bastante uso de música ambiente, especialmente quando o personagem Diego está discotecando ou ele e Caine ouvem música. Num dos momentos mais agressivos do filme, há uma trilha instrumental que faz uma homenagem bastante sutil ao músico Bernard Herrmann, pois coloca medo no espectador, como na famosa sequência do chuveiro, em Psicose. Mas a partir do momento em que a tensão na tela se desfaz, a trilha deixa também de nos fazer temer pelo pior e se transforma em uma música graciosa e tranquilizante. Interessante também o uso que é feito do som dos passos, no início dessa sequência. Eles nos fazem antecipar (e temer) o que está por vir.
Outra referência que o filme faz a um ícone do cinema está na cena em que Penélope Cruz é maquiada e usa penteados ao estilo que tornou Audrey Hepburn um símbolo internacional da moda. Logo em seguida, ela usa uma peruca ao estilo de Marilyn Monroe, mas, o visual que lhe caí melhor é, de fato, o da Bonequinha de Luxo. É um visual derivado desse que ela usa para interpretar a personagem de "Garotas e Maletas", filme do personagem de Lluís Homar.
Podemos dizer que Abraços Partidos é uma história de amor de Almodóvar, mas é, acima de tudo, um poema visual. Por meio de suas imagens sutis, mas impactantes; seu enredo simples, mas recheado de significados; o diretor deixa bem claro que viver intensamente cada segundo com quem se ama é o mais importante, porque nunca se sabe as surpresas que o dia de amanhã nos reservará.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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