
Durante todo o mês de dezembro, o Instituto Cervantes promove mais uma edição do Cine Papo, projeto que exibe gratuitamente filmes do cinema contemporâneo espanhol.
Nesta edição, serão exibidos filmes do diretor chileno Alejandro Amenábar, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza com o filme “Mar Adentro”. Confira o que o curador do Cine Papo e professor do Instituto Cervantes Pedro Navarro disse a respeito do evento, que tem sua primeira exibição hoje, 04 de dezembro.
Alejandro Amenábar tem sua obra, em geral, ligada à Espanha. Entretanto, o cineasta nasceu no Chile. Sua ligação com a América do Sul passa em algum momento pelo Brasil?
Bem, os pais de Amenábar tiveram que sair de Chile por culpa da repressão militar, pelo qual todo o crescimento de Amenábar – a sua formação, as influências – não tem muito, o quase nada a ver com o imaginário sul-americano. Realmente o imaginário do cineasta está muito ligado ao cinema comercial norteamericano SCI-Fi e fantástico, e com diretores main-stream como Spielberg, George Lucas, Ridley Scott ou Kubrick. A escolha de planos, o ritmo narrativo, a montagem, etc são completamente emprestados do cinema de Hollywood dos anos 1980, e pelo momento parece difícil estabelecer uma linha estética ou temática que aproxime Amenábar ao Brasil e as cinematografias nacionais sul americanas.
Falando especificamente de cinema, há algum idealizador, ou corrente brasileira com pontos confluentes ao estilo de Amenábar?
Bem, se os temas e a estética dos realizadores brasileiros é bem diferente, eu poderia relacionar a forma de gravação, as tomadas, planos, narrativa seqüencial e montagem com diretores fortemente influenciados pela estética contemporânea e o cinema norteamericano dos anos 80, como José Henrique Fonseca o Walter Salles. Novamente, esta e uma vinculação meramente formal, que tem a ver com as formas de expressão cinematográfica, com as influências no estilo, e não com os materiais narrativos.
"Mar Adentro" talvez seja sua obra mais expressiva. Em que sentido ela resume suas características de cineasta?
Realmente “Mar Adentro” marca um ponto de inflexão na cinematografia do diretor, já que parece uma tentativa de sair das temáticas fantásticas ou ligadas ao público jovem – que podem representar as curta metragems “Luna”, “Himenóptero”, ou os filmes “Tesis” e “Abre los ojos”, inclusive “Los Otros”. O diretor escolhe uma história real e portanto o filme acontece em cenários reais, facilmente identificáveis. Este movimento também tem a ver com um componente político na obra do Amenábar, que já não está só interessado em contar histórias e demonstrar os seus conhecimentos técnicos, mais também participa em controvérsias sociais, como o debate da eutanásia (“Mar adentro”), ou a luta entre o saber e o fanatismo religioso, que é o tema que fica na base de Ágora.
Desde esta leitura do filme, “Mar Adentro” é uma mostra mais do seu domínio técnico - é importante recordar que Amenábar já foi assistente de câmara, assistente de produção, editor, e esse passo por cada um dos elementos da produção de um filme faz com que ele reconheça a importância de cada participante no processo. Portanto, o filme apresenta as características já conhecidas do diretor: planejamento minucioso de cada uma das tomadas, do casting, da escolha da trilha sonora (dentro da qual, como em anteriores filmes, ele também compõe algumas peças), participação quase obsessiva na montagem do filme, etc. Mais ao mesmo tempo apresenta uma nova face do realizador, e esta é seu distanciamento das primeiras temáticas dos seus filmes, a aproximação ao realismo e aos gêneros mais clássicos do cinema, e uma certa vontade de participar no debate social.
"Tesis" e "Abre Los Ojos" também estão na seleção da mostra. O que dizer desta escolha? Ambos os filmes ainda são pouco conhecidos do público, correto?
“Tesis” foi um filme com um sucesso extraordinária na Espanha e teve uma atenção da crítica especializada européia enorme. Foi para o Festival de Berlim sem quase orçamento nem propaganda e acabou o ano ganhando em todos os festivais onde era apresentado. Amenábar teve uma aparição na cena cinematográfica européia só comparável a de realizadores como Wim Wenders ou Von Trier. Além da recepção da obra, “Tesis” colocou ao público espanhol frente a uma forma de fazer cinema absolutamente desconhecida no cinema espanhol, com uma linguagem netamente americana, livre de preconceitos, e um tratamento do gênero do thriller que o coloca na senda do Hithcock. O uso do plano referido permite que o espectador conheça o que está acontecendo mais não o veja, é esse e o ponto essencial do filme: a obsessão por ver, o voyeurismo de uma sociedade consumista que consome até imagens de assassinatos. Enquanto “Abre los ojos” a reflexão sobre o limite do mundo real e o onírico e a intrusão das pesquisas modernas no campo da realidade faz com que um argumento - que podia ser releitura do clássico de Calderón de La Barca “La vida es sueño” – seja completamente atual.
Projeto Cine Papo
Exibição de Tesis (04/12), Abre los Ojos (11/12) e Mar Adentro (18/12), filmes do diretor chileno Alejandro Amenábar
Haverá legendas em português
Horário: sempre às 19h30
Instituto Cervantes
Praça Milton Campos, 16 – 2º andar, Serra
Informações: (31) 3789-1600

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